
Passei um fim de semana lendo pela enésima vez “O Príncipe”, de Maquiavel, no esforço de entender a atual política da direção nacional do PT. Encontrei as fontes que possivelmente estão inspirando o assim chamado “novo PT”, aquele que trocou o poder da vontade de transformar a realidade pela vontade de poder para compor-se com a realidade, notoriamente envenenada com o propósito de perpetuar-se no poder. Nas palavras do candidato eleito pela convenção do partido em Minas Gerais, Fernando Pimentel, e depois invalidado, em nome da aliança com o PMDB: “O PT novo é o PT que faz alianças e convive com a realidade política brasileira, buscando transformá-la... Não somos mais um partido que coloca a ideologia como uma máscara, como óculos escuros para não enxergar a realidade política; operamos com a realidade política do jeito que ela é, para transformá-la” (“O Globo” 12/6). Vamos traduzir esse discurso. A ideologia básica do PT originário eram a ética e as reformas estruturais. O novo PT entende este propósito como uma máscara que não permite enxergar a realidade política do jeito que ela é. Sabemos como é o jeito da política vigente, montada sobre alianças espúrias, sobre a mercantilização das relações políticas e sobre a rapinagem do dinheiro público. Pimentel ainda acredita que, com as alianças, se pretende transformar a realidade, como se para transformar uma gangue de bandidos devesse fazer parte dela. A ética foi enviada ao limbo e em seu lugar entraram os conselhos de Maquiavel. Para ele, a verdadeira realidade das coisas é a busca tenaz do poder, as formas de conquistá-lo e de conservá-lo. E aí vale tudo; os fins justificam os meios. As “representações imaginárias” são a ética, o que deve ser. Ela não é posta de lado; até vale desde que favoreça o poder. Caso contrário, pode ser atropelada. O importante não é ser bom, mas parecer bom. Não há por que cumprir a palavra empenhada, se ela se volta contra o príncipe.É entristecedor ler em Pimentel: “Nesse processo de renovação, alguns companheiros vão ficar no passado”. Estes, na verdade, são os portadores do futuro porque são fiéis à ética e ao sonho de uma política diferente do jeito como é feita. A direção do PT se rendeu a ela, fazendo alianças escandalosas para se perpetuar no poder e assim se atolando no passado. O povo não merece ser defraudado desta forma. Quero me solidarizar com as vítimas do maquiavelismo do novo PT, especialmente em Minas Gerais e no Maranhão. Sarney do PMDB. Mas o projeto de poder não tem o mínimo sentido humanitário: Maquiavel dixit. Da mesma forma, quero me solidarizar com as vítimas de Minas Gerais, com Sandra Starling, com Patrus Ananias, dos melhores ministros do governo, com Durval Ângelo, paladino dos direitos humanos e de tantos e tantas que estão sofrendo indignados. Nem tudo vale neste mundo.
E se Cristo morreu, foi também para mostrar que nem tudo vale e que para tudo há algum limite, válido também para o PT.
LEONARDO BOFF Teólogo, professor e membro da Comissão da Carta da Terra