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domingo, 15 de novembro de 2009

A importância do uso de preservativos no controle das DST, uma realidade

RESUMO

Palavras-chaves: Doenças Sexualmente Transmissíveis, preservativos, educação, notificações
A reflexão central deste artigo constitui-se em torno das expectativas projetadas em relação às ações educativas de orientações desenvolvidas no âmbito da prevenção as Doenças Sexualmente Transmissíveis entre jovens. O ritmo de crescimento dos casos de aids entre as jovens preocupa o Programa Nacional de DST/Aids e demonstra a urgência em se ampliar na rede pública o projeto Saúde e Prevenção não apenas em escolas, mas também em casas noturnas e eventos onde encontram-se uma grande concentração de jovens, disponibilizando informações sobre DST/Aids, sexualidade, gravidez e violência, assim como a distribuição de preservativos masculinos e femininos.
Diversos estudos confirmam a eficiência do preservativo na prevenção da aids e de outras doenças sexualmente transmissíveis. Em um estudo realizado recentemente na Universidade de Wisconsin (EUA), demonstrou-se que o correto e sistemático uso de preservativos em todas as relações sexuais apresenta uma eficácia estimada em 90-95% na prevenção da transmissão do HIV. Os autores desse estudo sugerem uma relação linear entre a freqüência do uso de preservativos e a redução do risco de transmissão, ou seja, quanto mais se usa a camisinha menor é o risco de contrair o HIV.


ABSTRACT

Key-words: sexually transmitted diseases, condoms, education, notifications

The reflection of this article is around projected expectations in relation to educational guidance developed in the prevention of sexually transmitted diseases among young.

The growth of AIDS cases among young women concerned about the National STD / AIDS and demonstrates the urgent need to expand the public the project Health and Prevention not only in schools but also at clubs and events which are a large concentration of young people, providing information on STD / AIDS, sexuality, pregnancy and violence to students, as well as the distribution of male and female condoms.
Several studies confirm the effectiveness of condoms in preventing AIDS and other sexually transmitted diseases. In a recent study at the University of Wisconsin (USA) demonstrated that the correct and systematic use of condoms in all sexual intercourse has an efficiency of around 90-95% in preventing HIV transmission.

The authors of this study suggest a linear relationship between the frequency of condom use and reduced risk of transmission, that is, the more you use condoms lower the risk of contracting HIV.






INTRODUÇÃO

As Doenças Sexualmente Transmissíveis (DST) são tidas como um grave problema de saúde pública por afetarem muitas pessoas. Seus sinais e sintomas muitas vezes são de difícil identificação e o acesso ao tratamento correto pode ser mais demorado. Uma grande preocupação relacionada às DST é o fato de facilitarem a transmissão sexual do HIV. As DST quando acometem gestantes, podem atingir o feto durante seu desenvolvimento, causando-lhe lesões. Podem, também, provocar uma interrupção espontânea da gravidez (aborto), determinar uma gravidez ectópica (fora do útero) ou, ainda, causar o nascimento de crianças com graves má-formações. Durante o parto, podem atingir o recém-nascido, causando doenças nos olhos, pulmões,etc. Diante disto, o acesso irrestrito das pessoas ao diagnóstico precoce e tratamento adequado de todas as DST é fundamental. Uma das principais preocupações relacionadas às DST é o fato de elas facilitarem a transmissão sexual de outras DST e, principalmente, do vírus da aids. A Organização Mundial de Saúde estima que ocorram, no mundo, cerca de 340 milhões de casos de DST por ano. Nessa estimativa não estão incluídos a herpes genital e o HPV.Em números, no Brasil, as estimativas de infecções de transmissão sexual na população sexualmente ativa são: Sífilis: 937.000, Gonorréia: 1.541.800,Clamídia: 1.967.200, Herpes genital: 640.900, HPV: 685.400. A transmissão ocorre por contato sexual sem o uso consistente da camisinha, seja feminina, ou masculina, com uma pessoa que esteja infectada e, geralmente, se manifestam por meio de feridas, corrimentos, bolhas ou verrugas. Algumas DST são de fácil tratamento e rápida resolução. Outras têm tratamento mais difícil ou podem persistir ativas, apesar da sensação de melhora. Mulheres, em especial, devem ser bastante atenciosas, já que, em diversos casos de DST, não é fácil distinguir os sintomas das reações orgânicas comuns de seu organismo. Isso exige da mulher consultas periódicas ao profissional médico e/ou enfermeiro. Algumas DST, quando não diagnosticadas e tratadas a tempo, podem evoluir para complicações graves e até a morte. O tratamento das DST melhora a qualidade de vida da pessoa acometida, interrompe a cadeia de transmissão destas doenças e também diminui o risco de transmissão do HIV/aids, pois as feridas nos órgãos genitais favorecem a entrada do HIV. As doenças sexualmente transmissíveis são prevalentes na adolescência e facilitadoras da contaminação pelo HIV. A baixa idade das primeiras relações sexuais, a variabilidade de parceiros, o não uso de preservativo e o uso de drogas ilícitas são apontados como fatores de risco às doenças sexualmente transmissíveis. Fisiologicamente o epitélio cilíndrico do colo do útero na adolescência se encontra mais vulnerável tanto as clamídeas como aos gonococos. A baixa idade da menarca pode levar a um início precoce da atividade sexual, aumentando a probabilidade de contaminação. No âmbito psíquico, a adolescência é uma fase de definição de personalidade e identidade sexual, podendo desta forma ocorrer uma variabilidade de parceiros, expondo a riscos sem prever suas conseqüências. O baixo nível escolar e socioeconômico estão associados às DST, assim como o uso de álcool e drogas, já comprovados por diversos estudos.
O ritmo de crescimento dos casos de aids entre as jovens preocupa o Programa Nacional de DST/Aids e demonstra a urgência em se ampliar na rede pública o projeto Saúde e Prevenção não apenas em escolas, mas também em casas noturnas e eventos onde encontram-se uma grande concentração de jovens, que disponibiliza informações sobre DST/Aids, sexualidade, gravidez e violência a estudantes. Problemas como preconceito e diferenças sociais estão fazendo com que, entre as jovens de 13 a 19 anos de idade, o número de casos de aids registrados seja seis vezes maior do que entre rapazes. A velocidade de crescimento da infecção entre as mulheres em geral já chega a ser nove vezes maior do que entre os homens. Hoje, cerca de 80 mil mulheres no Brasil vivem com HIV/Aids.
A Secretária da Saúde do município firmou convênio com algumas empresas que atuam na divulgação das casas noturnas através de colunas sociais, sendo desta forma a distribuição de preservativos.
Diante disto e da importância de se pesquisar sobre DST/aids foi realizado um estudo que tem como objetivo geral, observar a diminuição de casos de DST/aids com a distribuição de preservativos femininos e masculinos assim como a orientação de jovens sobre como prevenir estas doenças.




MATERIAL E MÉTODO

Trata-se de um estudo ---------, onde foram tabulados dados através de indicadores de distribuição de preservativos, exames citopatológicos e notificações de doenças sexualmente transmissíveis.
Os preservativos recebidos a nível de Ministério da Saúde são de 92.880 no ano de 2008, sendo que, o município distribuiu 87.986 perfazendo um percentual de 94,74%. E, de janeiro a agosto de 2009, recebemos 79.696 até o momento e distribuímos 77.521 atingindo 97,30%.

Os exames citopatológicos realizados em mulheres de idade fértil, que abrange 13.000 mulheres da população do município, foram de 1950 coletas no ano de 2008 perfazendo um percentual de 15% das mulheres. Em 2009, de janeiro a agosto, foram realizados 1061 exames sendo 8,16% da meta de 15% das mulheres.

Dos citopatológicos realizados de janeiro de 2008 até agosto 2009, levantou-se 06 casos de NIC (neoplasia intra-epitelial cervical).

As notificações de Doenças Sexualmente Transmissíveis na população em idade fértil, população esta de 24.000 pessoas, em 2008 notificou-se 15 casos, sendo um percentual de 0,06%. Em 2009, de janeiro a agosto, foram notificados 10 casos, sendo um percentual de 0,04%.

Fizemos a apresentação dos dados através de tabelas, utilizando porcentagem simples e criação de categorias a partir de núcleos temáticos identificados.




RESULTADOS

No levantamento realizado constatou-se a importância da educação sexual através da distribuição de preservativos femininos e masculinos, como também o aumento do número de coletas de citopatológicos, onde observou-se uma diminuição de casos de Doenças Sexualmente Transmissíveis e de neoplasia intra-epitelial cervical.

sábado, 31 de outubro de 2009

Oncologistas cobram investimentos para melhorar atendimento aos pacientes de câncer.


Os oncologistas reunidos no XVIII Congresso Brasileiro de Cancerologia, encerrado hoje (31), em Curitiba, divulgaram um documento alertando as autoridades públicas, especialmente o Ministério da Saúde, para a necessidade de melhoria imediata e progressiva das condições de atendimento ao paciente oncológico do Sistema Único de Saúde (SUS).


Na Carta de Curitiba, eles afirmam que não aceitam conviver com limitações com poucas opções de tratamento nem podem compactuar com a existência de pacientes de primeira classe, atendidos pela rede hospitalar privada, e de pacientes de segunda classe, atendidos pelo SUS, ou mesmo, em alguns casos, a total desassistência dos pacientes pela grande demanda reprimida. Eles alegam que as reivindicações que constam da carta são em respeito à Constituição Brasileira de 1988, que no artigo 196 defende que a saúde é um direito de todos e um dever do Estado.De acordo com os participantes, torna-se imperiosa a adoção de novos medicamentos e tecnologias, bem como a atualização da tabela de procedimentos oncológicos, nas quais ocorreram apenas alterações pontuais nos últimos 11 anos, sendo transferida parte dos custos para os prestadores de serviço.


"O tratamento de câncer, no Brasil, no que se refere ao SUS, deixa enormes lacunas nas opções à disposição dos oncologistas, impossibilitados de utilizar tecnologias e drogas já incorporadas à prática médica há muito tempo. As políticas adotadas para a inclusão de procedimentos médicos no SUS, na área de oncologia, vêm excluindo o uso de drogas, como anticorpos monoclonais que, em várias indicações (como câncer de mama e linfoma não Hodgkin), têm o seu uso consagrado há vários anos", ressalta o documento.


Os médicos citam alguns equívocos nas políticas adotadas, como a forma como se incorporou a droga Glivec® à tabela de procedimentos da oncologia no SUS em 2001. "Na época, o governo promoveu a isenção de impostos para o medicamento para que o preço ficasse compatível com o valor pago pela autorização de procedimentos ambulatoriais de alto custo (APAC). Ainda assim, o procedimento era deficitário para os prestadores de serviço", diz a carta. Segundo o documento, o valor pago cobria apenas o preço do medicamento, o que era insuficiente para arcar com os custos operacionais do procedimento, incluindo aí honorários médicos, despesas com pessoal, custos de faturamento, impostos, conservação e ampliação da infraestrutura, além das crescentes exigências da Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa).
Informam que o número de pacientes que usam Glivec® vem crescendo, o que o torna extremamente oneroso para o sistema. "A tal ponto que, em 2007, o gasto do ministério com esse remédio totalizou R$ 203 milhões, ou seja, 19,8% de todo o gasto do SUS com quimioterapia, embora o número desses pacientes represente menos de 2% do número total em tratamento oncológico".


Os oncologistas também chamam a atenção da sociedade brasileira e das autoridades de saúde para a Portaria Ministerial n° 649, que estabelece o uso do Dasatinibe no tratamento leucemia mielóide crônica refratária ao Glivec®. Os valores estipulados para cada procedimento por tal portaria inviabilizam o tratamento da população necessitada, já que não garantem quaisquer recursos além do simples custo da medicação.


Eles concluem a Carta de Curitiba reafirmando a necessidade de revisão do orçamento do Ministério da Saúde destinado aos procedimentos de oncologia clínica no SUS, assim como melhoria no acesso e na cobertura do atendimento cirúrgico oncológico e de radioterapia. Eles se comprometem a lutar pela promoção da justiça e da equidade no tratamento do câncer e exigem do Ministério da Saúde que acelere o exame dos seus pleitos

sábado, 12 de setembro de 2009

Os futuros benefícios da Gripe A

Francisco Orniudo Fernandes - Médico infectologista
Publicado no(a): Em: 1/9/2009


Sempre que acontece uma epidemia, há propagação também de pânico na população, gerado pela falta de conhecimentos sobre a nova doença, a indisponibilidade de um tratamento eficaz, ou de proteção através das vacinas. O medo maior é, sobretudo, da morte, que no início ocorre com rapidez e com números assustadores. Epidemias e pandemias nunca deixarão de existir. Paracelso há alguns séculos afirmara: “O certo é que, no mesmo lugar da terra onde existe um veneno mortal, existe um contraveneno exato; e que, do mesmo modo que as doenças são geradas, a saúde também é produzida”. A epidemia da gripe H1N1, assim como as demais que aconteceram na história da humanidade, vai terminar quando a população adquirir imunidade, porque teve a doença, ou com a aplicação da vacina específica, tornando-se posteriormente, uma gripe sazonal, como a gripe comum. É possível que tenhamos uma diminuição progressiva dos casos, nos próximos meses, com a chegada do verão, o vento forte que sopra em nossa região e os raios do sol servirão para trazer alegria com a diminuição das doenças infecciosas respiratórias. Eu acredito que as medidas básicas de higiene, tais como: lavar as mãos e a utilização de lenços descartáveis, evitar aglomerações, amplamente propagadas pelos meios de divulgação, traga o benefício para a contensão da pandemia, e, quem sabe, se essas orientações permanecerem como educação continuada, no futuro irão contribuir para a diminuição dos índices de infecção hospitalar. A mídia exerce um papel fundamental quando focaliza para a comunidade os aspectos educativos estabelecidos pelos órgãos públicos de saúde. As notícias quando são excessivas, agressivas, com enfoques negativos, sobretudo, projetando a progressão da doença e números de óbitos, pode contribuir para o pânico generalizado. O Ministério da Saúde tem toda responsabilidade de informar adequadamente sobre a evolução da doença no País, as medidas que precisam ser adotadas ou modificadas, as descobertas recentes, inclusive, a perspectiva de uma nova vacina. Infelizmente as autoridades brasileiras alertam para as práticas de higiene e civilidade, nas ocorrências de surtos ou epidemias, quando deveria ser instituído um programa de educação permanente, nas escolas, colégios, universidades, hospitais e todas as instituições nacionais de saúde Compete também ao Governo, adotar medidas enérgicas com aplicação de multas, para impedir a exploração das firmas comerciais, supermercados, laboratórios, distribuidoras de medicamentos ou farmácias, que se aproveitam da situação de pânico da população, para aumentar o preço de materiais ou substâncias utilizadas para a higiene e prevenção, tais como, máscara, lenços descartáveis e álcool. Como exemplo, em menos de dois meses, do aumento do número de casos, a máscara N95 que tem a sua utilização restrita aos profissionais de saúde, que lidam diretamente com os doentes da H1N1, custava R$ 3,00, já está sendo vendida pelo preço de R$ 15,00 . O álcool-gel que era pouco consumido está faltando nos estabelecimentos comerciais, e quando se encontra o preço está nas alturas. Há pessoas que arbitrariamente estão comprando (no mercado paralelo) e se automedicando com o oseltamivir, sem nenhum critério, sem prescrição médica e sem garantia quanto a sua confiabilidade. Registro de reações colaterais e resistência viral são relatados na literatura mundial. Em todas as epidemias há os verdadeiros beneficiados, os doentes que se submetem ao tratamento e ficam curados, os que se protegem com a aplicação da vacina, e, os que ganham dinheiro à custa da exploração do povo apavorado. Toda pandemia tem começo e fim.

sábado, 8 de agosto de 2009

De porcos e homens.

Flavio Andrade Goulart

Mudam-se os tempos, mudam-se as vontades... Esta é a primeira estrofe de um primoroso soneto da Lírica de Camões, no qual o poeta lamenta a passagem do tempo e as inúmeras mudanças que esta provoca na alma, nos sentimentos, na natureza, na vida enfim. O último verso, digno de Heráclito de Éfeso, o criador da Dialética, ressalta a mudança até na maneira do mudar das coisas (outra mudança faz de mór espanto, que não se muda já como soia...). A criação do poeta não deixa de ser bastante adequada, também, para despertar algumas reflexões sobre o must da temporada: a chamada gripe suína. Com efeito, mudaram-se os tempos e estas mudanças tiveram imensas repercussões nas formas de lidar com os problemas de saúde pública, seja do ponto de vista das técnicas, das relações políticas, das maneiras de divulgar e fazer repercutir o fenômeno, das diversas vontades implicadas com o mesmo.

Gripe suína, influenza A, H1N1 ou qualquer outro nome que se queira dar. Esta é mais uma história de um mundo que muda a cada dia – não necessariamente para melhor, diga-se de passagem – e sobre o qual nós carecemos de instrumentos de compreensão, menos ainda de mudança das coisas a nosso favor.

No princípio eram os porcos... Mais precisamente na aldeia mexicana de La Glória, onde, a 10 quilômetros colina acima, as Granjas Carroll, que atendem também pela alcunha de Smithfield Foods, criam uma vasta porcada. Essa agroindústria tem sede na Virgínia e na Carolina do Norte, no vizinho país, de onde foram expulsas, aliás, por fazer muita porcaria no meio ambiente. No interior do México não é diferente: há anos acumulam-se denúncias de contaminação do lençol freático, do surgimento de febres intestinais na população da região, entre outros problemas. Pela regras do Nafta, entretanto, do qual o México é um parceiro obsequioso, permitiu-se a realocação da Carroll, desde 1994, em La Glória, distrito de Peiote, à distância conveniente da fronteira com os EUA. Seria trágico, se não fosse real e se não fosse considerado pelo governo mexicano um ganho econômico para a nação.

Pois bem, no coração de La Glória, uma povoação paupérrima entre tantas outras no México, o primeiro a adoecer foi um menino de quatro anos, que conseguiu sobreviver, todavia. Seu organismo pode ter servido de base de lançamento para uma combinação genética que daria up-grade ao vírus. Mas outros acham que, na verdade, tudo isso surgiu de um erro de manipulação, em laboratório, em outro país, distante dali, tanto em termos geográficos como econômicos e culturais. Mas aí, os pobres mexicanos e também os porquinhos Carroll – nada a ver com histórias infantis – já haviam levado a culpa.

Isso se deu em março último, mas de lá para cá tantas coisas aconteceram e continuam a acontecer que nós, os mortais comuns (99,99% da humanidade), andamos completamente desnorteados.

Em primeiro lugar é uma doença que se chama suína, mas não vem dos porcos; é mexicana, mas que talvez não tenha se iniciado ou se concentrado no país de Frida Kahlo; parece a gripe comum, mas tem comportamento próprio – e estranho. Seus números figuram surreais, por variarem ao sabor da coloração das fontes, das pressões do interesses e sabe-se lá do quê mais.

Os produtores de carne suína, entre eles os do Brasil, fizeram sua parte para aumentar a confusão, ao exigir a mudança do nome da doença; o México, tradicional destino turístico e que tem nos porcos uma forte indústria, chiou com razão; laboratórios farmacêuticos internacionais, até ontem ameaçados pela outra crise, a do capitalismo, ofereceram pressurosamente suas balas mágicas, farmacológicas e imunológicas contra a influenza A, fazendo, até mesmo, quem sabe, certa “torcida” para que o estado de pandemia fosse declarado, de vez, pela Organização Mundial de Saúde – OMS.

A Organização Mundial de Saúde, por sua vez, custou a ver que a ficha lhe escapara. E tome divulgação de informações pouco confiáveis. No meio do caminho aceitou uma das mudanças de nome da doença para atender aos interesses do porco-negócio. Para muitos a grande entidade mundial da saúde ainda está meio perdida, eis que faz e incentiva uma despropositada badalação em relação a uma doença que nem atinge ou mata mais pessoas do que a tradicional gripe, tão vulgar no cotidiano das pessoas. Enquanto isso, doenças de verdade, como a malária, a tuberculose, a dengue, a leishmaniose ceifam vidas em todo o mundo, em proporções incomparavelmente maiores do que a tal influenza A. Para não falar nos acidentes, nas demais violências, nas doenças derivadas do hábito de fumar, do câncer e até mesmo da fome – a velha, velhíssima fome! E não consta que a OMS faça tal escarcéu diante delas.

A paranóia, esta sim, triunfa e conhece tempos de glória, enquanto La Glória original já ficou esquecida. A China, imaginando certamente que o México e o resto do mundo já fazem parte da Grande China (um dia talvez o façam de fato, mas que Beijing tenha calma e aguarde...), decreta quarentena, detêm cidadãos mexicanos, fecha hotéis, trata com antivirais todos os passageiros de determinados vôos internacionais e mais faria se não fora, para tanta paranóia, tão curta a gripe... Ou seja, as autoridades chinesas tentaram tratar o mundo exterior como fazem com seu próprio povo. Aliás, a portentosa China da economia, em matéria de direitos humanos e realizações de saúde pública, bem poucas lições pode oferecer aos outros países, mesmo bem mais pobres e de menor PIB do que ela...

Nos últimos dias, tornou-se possível o acesso, pela internet, de um mapa global construído dentro da tecnologia do programa google maps, mostrando a distribuição dos casos de H1N1 em todo o mundo, permitindo observar também seu detalhamento em termos de uma linha de tempo. A imagem disponível, rica em cores e detalhes, salta aos olhos: o fenômeno está localizado nitidamente acima da linha do Equador, mais precisamente nos Estados Unidos, no Canadá e na União Européia. Conclusão? Não estaria aí uma das causas, talvez a principal delas, para a desproporcionalidade da reação das OMS e das próprias nações ricas diante do fenômeno?

Imagino, também, que a humilhação que os mexicanos sentiram deve estar sendo finalmente revertida. Se a doença começou entre eles (o que é controverso), o certo é que ela hoje está muito mais bem controlada no México do que nos Estados Unidos, país que, como se sabe, tem um sistema de saúde calcado no liberalismo e no Mercado, com reduzida capacidade de intervenção diante de problemas de interesse coletivo, como as epidemias em geral. Afinal, ali imperam a livre empresa e o livre arbítrio, além do the pursuit of happiness, para o bem e para o mal.

O papel da imprensa também oferece grandes oportunidades para reflexões. Ela aparentemente fez o que devia (e que muitas vezes ficaria opaco, se deixado apenas a cargo das autoridades). Mas foi uma cobertura pautada pelas duas grandes vacas sagradas da comunicação contemporânea: a espetacularização e o mercado. Da primeira, já há quem advirta que esta gripe é mais midiática do que propriamente virótica – e não é difícil acreditar nisso – mesmo quem não crê em bruxarias desconfia que las hay... Do mercado, que hoje é tratado pela mídia como uma entidade dotada de inteligência, reações e até sentimentos, nem se fala. Ler um grande jornal ou ouvir TV nesses tempos de cólera, digo de gripe, nos dá às vezes a sensação que se trata de matéria produzida diretamente pelas assessorias de comunicação da Glaxo ou da Roche, quando não dos gabinetes da União Européia. Uma coisa é certa: o fim da gripe poderá acontecer quando aparecer algum fato novo de importância mundial, quem sabe alguma derrubada de Dow Jones em Nova Iorque ou em Shangai. Ou seja, vai terminar quando deixar de ser notícia, ou vai continuar, mesmo não sendo mais notícia – isso pouco importará. Na gripe como na guerra a primeira vítima não estava onde parecia estar; a primeira a tombar foi, como sempre, a Verdade. Conclusão: é preciso discutir, sim, o papel da mídia em casos como este, longe da certeza paranóica que costuma cercar a expressão liberdade de expressão. Essa liberdade não pode ser antagônica à necessidade de divulgar ao público não a verdade mais conveniente, mas as várias verdades que cada lado envolvido na história possui. Nunca a tradicional brincadeira dos economistas de que um espirro nas bolsas do primeiro mundo provoca uma pneumonia nos países mais pobres esteve tão perto de se transformar em verdade, embora com sinal trocado.

Falar no Deus Mercado nos remete a outra crise recente, a do Capitalismo, ente tão condenado como triunfante. Na gripe e na crise do capital há mais coisas em comum do que as enganosas aparências parecem demonstrar. Contradição e confronto de interesses mais do que necessidades ou demandas legítimas é uma delas. O papel da mídia em busca do espetáculo permanente é outra. E ainda: a celebração sem crítica do culto às novas divindades contemporâneas; a eclosão (e também a interrupção) de notícias não necessariamente provenientes de evidências da realidade; o isolamento e a alienação do cidadão comum das informações, para não falar das decisões.

É a globalização, diriam os mais afoitos. Mas isso não seria tudo. A globalização microbiana do mundo começou, de fato, no século XVI – nenhuma novidade na epidemia atual, portanto. No mais, as finanças, a informação simultânea, as migrações de pessoas, o crime organizado, os conhecimentos científicos, a tecnologia, os sistemas de poder, a produção e o trabalho humano, tudo isso hoje é globalizado, como lembra o pensador italiano Giovanni Berlinguer. Na prática, a globalização da economia equivale à acumulação de capital e de poder em mãos restritas e ao predomínio do jogo financeiro sobre qualquer outro interesse. Mas como lembra o mesmo Berlinguer, ela é irrefreável, sobretudo por corresponder a muitas exigências dos seres humanos.

A verdadeira questão parece ser bem outra: de qual a globalização se fala, para que fins, em que rumo? Os dois acontecimentos planetários recentes aqui tratados não parecem augurar respostas que conduzam a expectativas otimistas para a humanidade.

Que mundo é esse, afinal, que parece andar de ré? Que ele não nos serve, nem na economia e muito menos na saúde pública, parece não haver mais dúvidas. Os escombros estão por toda parte, mas no interior deles os germes da exploração e da irracionalidade conseguem, milagrosamente, se multiplicar. É um mundo caduco, mas nele ainda não conseguimos esgueirar o surgimento de algo verdadeiramente novo. Tempos difíceis, meus irmãos...
Em momentos assim, os inconformados habitantes de tal mundo ao revés querem ser agentes de mudanças sobre o mesmo. Hannah Arendt falou sobre isso como o exercício da vida ativa, ou seja, do que estamos fazendo, de fato, para mudar o que nega e destrói as condições de existência do ser humano. Entre trabalho, labor e ação, somente mediante a ação (vida ativa) humana é que as coisas de fato acontecem, pois este é o único componente da tríade que se realiza diretamente entre os homens, sem outras mediações. Seu atributo maior é o do exercício da liberdade e da instauração de novas formas de pensar, de fazer política, de participar da vida comunitária, de se rebelar contra as opressões novas e antigas.
Resumindo e encerrando: mudaram-se os tempos e as vontades; mudou-se até a maneira de mudar. Nós, cidadãos, não podemos ficar na situação colocada pelo antigo adágio chinês, que fala de alguém que ao lhe ser mostrada a lua só enxerga o dedo que aponta o satélite. Essa história de gripe suína (quem sabe também da crise que tem ceifado o emprego de milhões de pessoas) tem cara se ser apenas o dedo – a lua está mais adiante...

domingo, 2 de agosto de 2009

Contar os mortos, disseminar o pânico

Luiz Antonio Magalhães *

Sim, há uma nova gripe circulando no país, especialmente nas regiões Sul e Sudeste, como de resto em praticamente todo o mundo. É fato. Algumas pessoas vão morrer da moléstia, como de resto morre gente vítima das outras gripes existentes. Também é fato. O que tem sido visto na grande imprensa brasileira nos últimos dias, porém, é praticamente um crime contra o bom senso e a inteligência do distinto público. A cobertura da chamada gripe suína (o nome correto é Influenza A H1N1) se tornou uma verdadeira aberração, provoca pânico na população e certamente vai se mostrar exagerada em menos de dois ou três meses, quando os números da tal "terrível pandemia" começarem a murchar. Como a mídia não tem autocrítica, porém, logo surgirá outro assunto para a irresponsabilidade dos responsáveis pelas manchetes e escaladas dos telejornais.
Não é preciso ser gênio para perceber que a cobertura dos últimos dias e semanas, focada na contagem do número de mortos que a maléfica gripe já provocou no país, não tem nenhuma outra utilidade senão a de disseminar o pânico. O ombudsman da Folha de S.Paulo, Carlos Eduardo Lins da Silva, em sua coluna dominical (26/7) reproduzida ao final deste texto, classificou a cobertura da Folha – e em especial uma reportagem publicada no domingo anterior (19/7), intitulada "Gripe suína deve atingir ao menos 35 milhões no país em 2 meses" – como "um dos mais graves erros jornalísticos cometidos por este jornal desde que assumi o cargo, em abril de 2008".
Carlos Eduardo se limitou a escrever sobre a Folha, mas as suas observações valem para praticamente todos os grandes jornais e telejornais. Todos os dias o público vai sendo informado do número de mortos em decorrência da nova gripe, porém sem qualquer referência estatística ou base comparativa que permita a compreensão do fenômeno em curso. O ministro da Saúde, José Gomes Temporão, já explicou, inclusive no programa televisivo deste Observatório, que a taxa de letalidade da gripe suína é a mesma da gripe comum – cerca de 0,6% dos infectados acabam morrendo. (Para ser preciso, usando os dados da OMS divulgados na segunda-feira, 27/7, são 87 mil infectados nas Américas para 707 mortes. A taxa de letalidade fica em 0,8%, mas deve ser muito mais baixa porque os países pararam de fazer testes para descobrir os infectados, que devem superar em muito os 87 mil).
Do ponto de vista da imprensa, porém, este é um dado que não deve ser de maneira alguma alardeado – afinal, notícia ruim é o que vende jornal e aumenta audiência na televisão. As estatísticas também mostram que morre muito mais gente de diarréia e verminose por semana no Brasil do que, desde o início do ano (quase oito meses!) de gripe suína. Aliás, só no inverno passado (junho/julho) foram 4,5 mil mortos da gripe "normal" contra os tais 45 da gripe suína neste ano.
Recordar é viver
O pior de tudo é que a mídia insiste em não aprender com os erros passados. Ao contrário, gosta de repetir os mesmos equívocos, mesmo que eles possam vir a cobrar seu preço em perda de credibilidade. A cobertura da nova doença, por exemplo, faz lembrar um pouco a do tal do Ebola, o vírus que dizimaria meia África e deixaria um rastro de desgraça pelo mundo afora. Na época (edição de 9 de agosto de 2000), a revista Veja publicou reportagem cujos títulos e lides eram os seguintes:
Truque assassino
Descoberto mecanismo de infecção do vírus Ebola, que mata nove entre dez contaminados
O Ebola é um pesadelo. Capaz de liquidar suas vítimas em poucos dias, é o mais violento de todos os vírus. De cada dez pessoas contaminadas, nove morrem. Isso ocorre porque o microrganismo ataca veias e artérias de todo o corpo, provocando hemorragia generalizada. Certos órgãos, como o fígado e os rins, simplesmente se desfazem e o sangue jorra em tal profusão que sai pelos olhos e poros. Na semana passada, cientistas americanos anunciaram o primeiro passo para combater esse assassino cruel: a descoberta da proteína usada pelo Ebola para destruir as células, causando o rompimento dos vasos sanguíneos. Entender o mecanismo de infecção torna possível o desenvolvimento de recursos para controlá-lo. "Remédios exigem maior prazo de pesquisa, mas uma vacina pode ser desenvolvida com rapidez", disse a Veja Gary Nabel, coordenador da pesquisa no Instituto Nacional de Saúde, responsável pelos estudos com o vírus, nos Estados Unidos.
Bem, a África continua por lá e os africanos também. Mundo afora, parece que não foi muita gente que morreu contaminada pelo "pesadelo" da Veja, que mataria nove de cada dez contaminados. É evidente que a taxa de letalidade não poderia ser tão alta, é óbvio que a "reportagem" era uma aula de sensacionalismo barato.
Sensacionalismo ou motivação política
A reportagem da Folha, cuja irresponsabilidade foi apontada pelo ombudsman do jornal, é apenas um exemplo entre tantos outros que poderiam ser colhidos ao acaso em todos os grandes veículos de comunicação do país. Resta então analisar por que a mídia brasileira realiza uma cobertura tão equivocada da gripe suína. Vamos lá:
Qualquer estudante de primeiro ano de jornalismo ou qualquer jovem esperto, sem diploma, que entrar em uma redação percebe, em questão de minutos, o verdadeiro fascínio que as más notícias exercem sobre os jornalistas. Notícia ruim, tragédia das realmente pesadas, vende muito mais do que fatos positivos. A menos, é claro, que a boa notícia seja algum novo milagre de Fátima, a cura definitiva do câncer ou vitória da seleção em Copa do Mundo. O fato é que jornalistas gostam de notícias ruins porque elas vendem, portanto os ajudam a levar para casa o leitinho das crianças (em alguns casos, o "leitinho" é para os adultos mesmo). Enfim, a vida é dura e nada como uma boa manchete trágica para chamar atenção do público.
Por outro lado, já circula na internet, em blogs pró e contra o atual governo, a versão de que a cobertura da imprensa no caso da gripe suína visa desestabilizar o até aqui muito bem avaliado trabalho do ministro Temporão e, por tabela, tirar mais uns pontinhos da altíssima popularidade do presidente Lula. Sim, é a clássica teoria conspiratória: a mídia contra o governo, usando as armas disponíveis, mesmo que elas signifiquem botar no papel ou na telinha da televisão algo que pouco tem a ver com a realidade. Para os partidários desta teoria, o caso da gripe seria ainda mais estratégico, pois o candidato preferido da oposição ao cargo de Lula, o governador paulista José Serra (PSDB), foi ministro da Saúde, e a "desconstrução" da competência do atual ministro cairia como uma luva para a candidatura tucano-demista em 2010. Quem advoga esta tese lembra as "crises artificiais" criadas pela mídia, como a aérea, que no entanto em pouco ou nada afetaram a popularidade do governo Lula.
É claro que ainda é cedo para dar um veredicto final sobre a cobertura da imprensa da gripe suína, mas já é possível sustentar a hipótese de a fome (de audiência e vendas) estar colada à vontade de comer (prejudicar um governo em relação ao qual a grande imprensa sempre foi francamente hostil). Os fatos, porém, acabam se impondo e são sempre mais fortes do que as versões construídas pela mídia, como prova o caso do "sequestro da caderneta de poupança", tão ventilado nas folhas e que se mostrou frágil como um castelo de cartas. Portanto, nada como um dia após o outro para que um quadro mais preciso das reais motivações da mídia nesta cobertura acabe aparecendo. O distinto público, para desalento de certos mancheteiros, é mais esperto do que se imagina...

* Jornalista, subeditor do Observatório da Imprensa
Fonte:
Observatório da Imprensa, 28/7/09 (texto reproduzido na seção Radis na Rede do site da Revista Radis, em 29/7/09)

Nós e o temor da pandemia da Gripe H1N1

Gilson Carvalho[1]

A nova gripe já se espalhou mundo afora. A Organização Mundial da Saúde já não tem como meta a contagem de cada caso, a não ser os mais graves, pela desimportância da medida. No Brasil temos novo protocolo de abordagem da pandemia. Já abandonamos a estratégia de atender as pessoas rotineiramente em hospitais e centros de referência. Agora a estratégia é prestar o primeiro atendimento nos consultórios, clínicas, unidades de saúde e ambulatórios. Para os hospitais de referência devem ser encaminhados apenas os que necessitem de cuidados especiais.
A melhor medida a adotar é a busca precoce de um diagnóstico: buscar os serviços de saúde quando sinas e sintomas aparecerem. Eles são os mesmos das gripes comuns: febre, tosse, coriza, mal estar. Os casos mais graves apresentam-se com febre mais alta (acima de 38 graus), tosse, dificuldade para respirar apresentando respiração mais rápida. A pressão pode cair. A dificuldade para respirar pode se agravar e aparecerem movimentos das asas do nariz, mais comuns em criança que em adulto. As crianças podem também, apresentar vômitos, falta de apetite e irritabilidade. Existem circunstâncias que, a qualquer tempo e gripe, podem levar à maior gravidade. São denominados de fatores de risco: crianças menores de dois anos, idosos acima de 60 anos, doentes com doenças crônicas como diabetes, cardiopatias, pneumopatias, algumas doenças do sangue e dos rins e em pessoas imunodeprimidas (portadores de câncer, AIDS).
Temos que nos equilibrar entre dois sentimentos extremos, por princípio posições ruins. De um lado o sentimento indevido de pânico individual e coletivo, pela convicção de que a gripe seja mal fatal, incontrolável e eminente. De outro o sentimento mágico, errado, de se minimizar o problema, desconhecer o risco e achar que esta seja mais uma gripe sem importância, ou mesmo uma gripe de falsa gravidade plantada para favorecer indústria e comércio de medicamentos e material médico-hospitalar. Como sempre a virtude continua no meio que é a posição assumida pela Organização Mundial de Saúde e seguida pelo Ministério da Saúde. Estar alerta, tomar providências tanto de garantir exames e medicamentos como de organização da rede de atendimento, cuidar dos doentes e orientar para as medidas preventivas que, de algum modo, podem diminuir os riscos e minimizar conseqüências.
Acho que Ministério da Saúde e Secretarias Estaduais e Municipais estão alertas e se preparando, cada vez mais, para dar conta do recado. Temos convicção que o acesso aos serviços públicos e muitos dos planos privados de saúde ainda não seja suficiente e totalmente eficiente. É hora de um grande esforço de investimentos financeiros e humanos (quantidade e preparo dos profissionais) para se garantir suficiência e eficiência no atendimento primeiro às pessoas. Nas unidades de saúde da família, postos e centros de saúde, consultórios e clínicas, pronto-socorros e hospitais. Que não se cuide apenas da atenção técnica, mas que ela seja feita com humanismo, respeitando-se angústias e temores das pessoas, diante do desconhecido.
Medidas preventivas mais efetivas são quase impossíveis, no ambiente e estilo de vida em que somos obrigados a viver. Os resfriados e gripados devem proteger a boca ao tossir ou espirrar. Lavar as mãos a cada vez. Se possível, evitar ambientes fechados (medida difícil: no inverno, no transporte coletivo, no ambiente de trabalho, escola, igreja...). Todos lavarmos sempre as mãos, sobra como medida universal mais viável, mas de efetividade menor.
Vigiar sem nos alarmarmos. A nós cidadãos, profissionais de saúde, prestadores de serviços e governos resta fazer o máximo possível para que menos pessoas adoeçam e as que adoecerem sejam bem socorridas, sarem logo e, sem seqüelas. Milagres não serão feitos, mas o possível de hoje será nossa tarefa para que nos ajudemos a viver mais e melhor.

[1] Gilson Carvalho - Médico Pediatra e de Saúde Pública - O autor adota a política do copyleft podendo este texto ser divulgado independente de outra autorização. Textos do autor disponíveis no site www.idisa.org.br - Contato: carvalhogilson@uol.com.br.

terça-feira, 28 de julho de 2009

Aids e Tuberculose....uma combinação perigosa..


Diagnóstico precoce das duas doenças pode reduzir óbitosde pacientes co-infectados pelo HIV/TB. O tratamentoda tuberculose deve ser imediato, mas o momentode incluir antirretrovirais deve ser avaliado caso a caso
De acordo com as estimativas da Organização Mundial de Saúde, o Brasil é o país com o maior número de casos de tuberculose na América Latina, com 96 mil casos novos estimados a cada ano. Em 2006, 80 mil casos de tuberculose foram notificados no Brasil, com taxa de incidência de 41,8 casos/ 100mil habitantes. A tuberculose é a segunda maior causa associada a aids no Brasil e, segundo dados do Ministério da Saúde, cerca de 26% dos pacientes com aids tiveram tuberculose. Com a TB e a aids afetando cada vez mais pessoas pobres, moradoras de periferia, e com deficiência de moradia, alimentação e condições de saneamento, cresce a necessidade de ações de diagnóstico precoce e continuidade no tratamento, além de melhores condições de vida.Um dos principais problemas é a não oferta do teste HIV para os pacientes com tuberculose. Embora exista um protocolo que oriente neste sentido ainda é muito baixa a realização, e dentre os que realizam chama a atenção o numero de diagnósticos positivos. No Rio de Janeiro, por exemplo, são diagnosticados, em média, 15 mil casos de tuberculose por ano. Menos de 30% realizam o teste anti-HIV e destes, 30% também estão infectados com HIV. Na região norte, a situação é ainda mais preocupante, dos 8 mil casos anuais de TB, apenas 1700 realizam o exame HIV e destes 400 têm resultado positivo.No país todo, cerca de 50% das pessoas com tuberculose têm acesso ao resultado do teste anti-HIV em momento oportuno, com uma prevalência de positividade de 15%. Além disso, a tuberculose é a maior causa de morte entre pessoas que vivem com HIV, sendo a taxa de óbito na co-infecção de 20%.Diagnóstico precoce e tratamento imediato
A TB persiste como uma importante causa de morte em países endêmicos como o Brasil. Os pacientes HIV+ com tuberculose observam sintomas mais graves e morrem mais quando comparados aos pacientes com tuberculose que não são portadores de HIV. Portanto, quanto mais cedo se obtém o diagnóstico de tuberculose num paciente portador de HIV, mais rapidamente se pode iniciar o tratamento. Consequentemente, este paciente fica menos tempo doente, apresenta menos complicações tanto da doença como do tratamento da TB, reduzindo a chance de óbito.O diagnóstico precoce da TB também age como uma importante estratégia de prevenção da doença. Quanto antes for feito o diagnóstico e o paciente for tratado de TB, menor será o tempo de exposição do bacilo a outras pessoas, com conseqüente redução de casos da doença.Em paciente HIV +, deve-se realizar o teste tuberculínico para o diagnóstico de TB latente. Caso esta seja diagnosticada, e descartando-se uma doença em atividade (TB ativa), deve-se iniciar a quimioprofilaxia com isoniazida (300mg por 6 meses). Estudos já demonstraram a alta eficácia desse tratamento na prevenção da tuberculose-doença, principalmente para pacientes em uso de terapia antirretroviral (TARV). Por outro lado, todo paciente com tuberculose deve realizar o teste anti-HIV, visto o impacto da TB em um paciente infectado pelo HIV. É importante que a soropositividade seja rapidamente conhecida para que sejam solicitados exames de CD4 e CV e, quando houver necessidade, se inicie o quanto antes a terapia antirretroviral.Cuidado com interaçõesSegundo a médica Leda Jamal do Centro de Referência e Treinamento (CRT) de São Paulo, a rifampicina, o principal medicamento utilizado no tratamento da TB, reduz significativamente as concentrações dos inibidores de protease (IP) e da transcriptase reversa não-análogos de nucleosídeos (ITRNN), importantes medicamentos utilizados no tratamento da aids. Há, assim, uma interação negativa no sistema microssomal hepático entre os principais medicamentos utilizados no tratamento dessas duas doenças.?O uso de esquemas alternativos de tratamento da TB que não contêm rifampicina são eficazes, porém têm efetividade reduzida devido à sua maior complexidade, maior dificuldade de adesão e ao tempo mais prolongado do tratamento. Portanto, recomenda-se dar preferência aos esquemas com rifampicina para tratar a TB, adequando a terapia antirretroviral?, explica a profissional.Iniciar pela TBÉ freqüente a descoberta da soropositividade para HIV durante o diagnóstico de TB e, na maioria dos casos, a terapia antirretroviral está indicada. O momento de iniciá-la, no entanto, tem gerado controvérsias. Se por um lado, retardar o início do tratamento aumenta o risco de óbito, por outro lado, o início concomitante dos antirretrovirais e dos tuberculostáticos, ambos com reconhecida toxicidade e exigências de adesão, aumenta o risco de intolerância medicamentosa e dificulta a identificação de que droga está associada a uma possível toxicidade.A médica Leda Jamal diz que, por ser uma decisão complexa e dependente de outros fatores, como por exemplo o valor de CD4, este momento de início da terapia antirretroviral em pacientes com TB ativa pode variar de um paciente para outro, sendo importante a avaliação médica e decisão conjunta do paciente com o seu médico.Já a infectologista, Ingrid Napoleão Cotta do CRT de São Paulo, entende que o tratamento da TB é prioritário. Assim, caso o paciente seja virgem de tratamento antirretroviral, recomendase iniciar a terapia antirretrovial em torno de 30 dias após o início do tratamento de TB, devido a questões rela-cionadas com toxicidade e adesão, mais freqüentes quando o início é feito concomitantemente. A rifampicina deve, preferencialmente, fazer parte de um esquema de tratamento para TB. Sem ela, o esquema não tem a mesma efetividade, e sua duração é estendida de seis meses para um ano, prejudicando a adesão. Não somente pelo tempo prolongado, mas pela necessidade, em muitos casos, de utilização de medicamento injetável.Exames periódicosAssim que a pessoa com HIV assintomático obtiver o resultado positivo para HIV, é importante fazer o PPD (exame de diagnóstico de tuberculose), como parte dos exames laboratoriais iniciais. O PPD é um importante marcador de risco para o desenvolvimento da tuberculose. Quando negativo, deve ser repetido anualmente para orientar a indicação de quimioprofilaxia com isoniazida (INH). Caso a quimioprofilaxia seja necessária, antes de iniciá-la, é muito importante excluir a tuberculose doença (ou tuberculose ativa) com os critérios clínicos, exame de escarro e radiografia de tórax. Esta importância se deve ao fato de que a quimioprofilaxia num paciente com tuberculose ativa é uma monoterapia, contrariando a recomendação de usar pelo menos três drogas no tratamento da TB.A justificativa para a quimioprofilaxia se baseia em evidências científicas. A infecção pelo HIV eleva o risco de desenvolvimento de TB ativa em indivíduos com TB latente, sendo o mais importante fator de risco para TB identificado até hoje. Vários estudos mostram que em pacientes infectados pelo HIV, com prova tuberculínica positiva (PPD > 5 mm), a quimioprofilaxia com isoniazida é efetiva em prevenir a TB.Além disso, o paciente deve informar ao seu médico sua história em relação à tuberculose: se já realizou PPD previamente e qual foi o resultado; se já teve tuberculose doença e, em caso positivo, com que medicações tratou; se reside ou já residiu em local com elevada taxa de TB; se já teve exposição prévia a TB como, por exemplo, morou ou trabalhou com algum paciente bacilífero; e se já viveu situação de ?falta de moradia? ou ?encarceiramento?.Seguir os protocolosPara que estes problemas sejam equacionados é necessária uma ampliação nos serviços públicos de saúde, através da formação consistente de uma rede que atenda pessoas que vivem com as duas patologias. Além disso, é essencial a adesão dos profissionais de saúde aos protocolos já recomendados, como a oferta de testagem para HIV para todos os portadores de TB, e a oferta do PPD e quimioprofilaxia para TB ? quando indicada ? para todas as pessoas que vivem com HIV.Todo serviço de saúde que diagnostica e trata tuberculose, seja uma Unidade Básica de Saúde (UBS), uma Policlínica de Especialidades, ou uma equipe de Saúde da Família, deve estar preparado para oferecer a testagem para HIV, utilizando preferencialmente os testes rápidos.
BRASIL PRODUZ NOVO MEDICAMENTO PARA TRATAR A TBA partir do segundo semestre deste ano, o Sistema Único de Saúde (SUS) terá um novo medicamento para o tratamento da tuberculose. A Dose Fixa Combinada (DFC), recomendada pela Organização Mundial da Saúde (OMS), aumentará o número de drogas utilizadas para tratar a doença de três para quatro e reduzirá a quantidade de comprimidos diários de seis para dois.Ao simplificar a administração das drogas contra a TB, reduzindo o número de comprimidos, a adesão ao tratamento vai aumentar. Segundo o Ministério da Saúde, atualmente 8% dos pacientes com tuberculose abandonam a terapia antes da cura. Mas nos países que já utilizam a DFC como terapia de primeira linha, o índice de abandono é menor: 5%.Até o momento, apenas cinco países do mundo, incluindo o Brasil, não utilizam a DFC para tratar a tuberculose. O novo medicamento, que será produzido pela Fiocruz, é fruto de um acordo de transferência de tecnologia entre o produtor indiano e o governo brasileiro e irá baratear os custos do tratamento em 10 reais por paciente.

QUANDO ENTRAR COM ARVS EM PACIENTES CO-INFECTADOSA recomendação hoje de avaliar caso a caso o início da terapia antirretroviral em pacientes co-infectados pelo HIV/TB tem uma justificativa: ainda não há consenso se o tratamento do HIV deve ser iniciado imediatamente após o tratamento da TB, ou se o médico deve esperar entre 30 e 60 dias para entrar com antirretrovirais. O que é certo até agora é que o tratamento da TB deve ser iniciado assim que for confirmado o diagnóstico da doença.As primeiras recomendações apontavam para um intervalo de 60 dias entre o início das duas terapias. Hoje, há pesquisas em andamento estudando a redução deste intervalo para 2 semanas ou 30 dias. Com a falta de consenso, muitos médicos estão optando pelo início da terapia antirretroviral 30 dias após o início do tratamento com tuberculostáticos.Os dois tratamentos, quando iniciados concomitantemente, podem resultar em efeitos colaterais mais graves. Esse procedimento só deve ser considerado quando o paciente estiver com níveis baixos de CD4 e carga viral elevada. Mesmo assim, sob acompanhamento frequente da resposta e evolução do paciente. Para os que estiverem com CD4 elevado, pode-se optar por retardar um pouco o início da terapia antirretroviral para até 2 meses, uma vez que não há um comprometimento grande da saúde. Os especialistas alertam, no entanto, que a terapia contra o HIV só deve ser iniciada após o paciente estar ciente dos prós e contras do esquema definido. Em pacientes já em uso de antirretrovirais que apresentarem diagnóstico positivo para a TB ativa, recomenda-se não suspender a terapia contra o HIV.Há, no entanto, um consenso de que os pacientes co-infectados pelo HIV/TB devem usar esquemas terapêuticos com antirretrovirais da classe dos inibidores da transcriptase reversa não nucleosídeo, como efavirenz, para reduzir os efeitos das interações das drogas usadas para TB e HIV.Um dos estudos em andamento no mundo acontece também no Brasil com a participação dos sítios de pesquisa clínica da Fiocruz e da UFRJ (Projeto Praça Onze). Os estudos estão ainda recrutando pacientes e iniciando a inclusão de voluntários.

OS DESAFIOS PARA O CONTROLE DA CO-INFECÇÃO TB/HIV NO BRASILDráurio Barreira*
Em março passado, ocorreu no Rio de Janeiro, o Partners Forum, assembléia mundial do STOP TB Partnership, parceria apoiada pela Organização Mundial da Saúde (OMS), composta por mais de 900 organizações governamentais e não-governamentais para o controle da tuberculose (TB) em todo o mundo.Foram três dias de intensos debates sobre as políticas de controle da TB, onde quase 2.000 participantes puderam discutir suas práticas, avaliar os resultados obtidos, trocar experiências e estabelecer prioridades para os próximos anos.Durante o Fórum, foi divulgado o relatório anual da OMS sobre a tuberculose. O documento trouxe dados extremamente preocupantes para o cenário internacional. Os mais alarmantes referem-se ao número crescente de casos da co-infecção TB/HIV, o número de mortes dos pacientes com aids causados pela tuberculose e o crescimento das formas de tuberculose resistentes aos tratamentos, a TB multidroga resistente (TB-MDR) e a TB extensivamente resistente (TB-XDR).Estima-se em 1,4 milhão os casos novos de TB em portadores do HIV no mundo, muito maior do que se estimava até o ano passado. O número de mortes de pacientes com aids causado pela tuberculose ultrapassou 450 mil mortes em 2007, levando a TB a tornar-se a principal causa de morte desses pacientes. Além disso, a testagem anti-HIV para os pacientes com TB e a realização de PPD e quimioprofilaxia para TB nos pacientes com aids estão muito longe das metas estabelecidas. Pouco mais de 4% dos doentes com tuberculose foram testados para o HIV no mundo e apenas 2,1% dos portadores do HIV fizeram a quimioprofilaxia para TB.Em relação ao Brasil, o Diretor do Programa de Tuberculose da OMS, Dr. Mario Raviglione, elogiou o Programa Nacional de Controle da Tuberculose pelas medidas adotadas em relação à co-infecção TB/HIV, ao controle da multirresistência, principalmente pelo fato de o país apresentar uma das mais baixas taxas de resistência aos medicamentos contra a tuberculose e ainda assim mudar o esquema de tratamento da doença, ampliar o orçamento do Programa em mais de 10 vezes nos últimos seis anos e realizar uma arrojada política de parceria com as organizações da Sociedade Civil. Além disso, o diretor da OMS apontou para uma melhoria do país no ranking dos 22 países com maior número de casos de TB, caindo da 16ª para a 18ª posição.Atualmente, no Brasil, o aconselhamento e a testagem anti-HIV para os doentes com TB e a quimioprofilaxia para tuberculose nos portadores do HIV são ações prioritárias para os programas de tuberculose e aids e uma das principais atividades desenvolvidas no âmbito do projeto de controle da TB apoiado pelo Fundo Global. Essas ações visam impedir o recrudescimento da tuberculose no Brasil, ocasionado pela alta prevalência desta doença entre os portadores do HIV, assim como impedir que a TB comprometa os avanços que vêm sendo alcançados na qualidade de vida dos portadores do HIV e na diminuição da mortalidade pela aids no país.Apesar dos avanços obtidos, também no Brasil a testagem anti-HIV para os pacientes com tuberculose e a quimioprofilaxia para TB nos portadores do HIV tem ficado muito aquém do que se espera. Apenas 59% dos doentes com TB foram testados para o HIV em 2007 e menos de 5% dos portadores do HIV fizeram a quimioprofilaxia para TB. Para que se tenha uma idéia em termos comparativos, no país 62% das gestantes são testadas para o HIV, apesar de terem um risco de serem infectadas pelo vírus 30 vezes menor do que um doente com tuberculose.O Ministério da Saúde, as secretarias de saúde de estados e municípios e os projetos de cooperação têm trabalhado para sensibilizar e capacitar um grande número de profissionais e equipar as unidades de saúde com os insumos necessários para estas atividades, mas o compromisso político do governo em combater a tuberculose e a aids no Brasil necessita do apoio dos profissionais de saúde e das pessoas afetadas pela TB e pelo HIV para, efetivamente, garantir as ações de prevenção e controle desses dois graves problemas de saúde pública no país.
* Coordenador do Programa Nacional de Controle da Tuberculose do Ministério da Saúde
Fonte: revista Saber Viver - julho/2009
http://www.saberviver.org.br/index.php
Fórum ONGs Tuberculose -RJ
http://www.sopterj.com.br/cons_tuberculose/

sábado, 4 de julho de 2009

A aposentardoria dos que menos têm.



Gilson Carvalho[1]


Os que me escutam em palestras e cursos já ouviram falar bastante de meu Lar Vicentino: minha sogra com 93 anos, a Zezé com 76 anos, que de doméstica virou agregada residente já aposentada há vinte anos, nós velhinhos, eu e Emilia e agora acaba de se aposentar a Rosa que completa 25 anos conosco, dos 53 anos de vida.
Rosa é o tema da domingueira. Ajudou a criar nossos cinco filhos, cuidou de mim e da Emilia, cuidou da casa e de nossa alimentação. Fez sua poupança e foi realizando seus sonhos. Comprou um terreno grande, construiu uma linda casa na cidade da Campanha, em Minas Gerais, berço de sua e nossa família. No quintal grande, usou de seu dom de saber plantar. A “Rosa do Dedo Verde” plantou uma dezena de pés de fruta como laranja, tangerina, limão, romã, ameixa, banana e ainda planta milho, mandioca e hortaliças. Fica conosco em São José dos Campos e vai sempre a Campanha descansar e receber os amigos em sua casa. Sempre traz alguma produção de seu quintal para nós que aqui ficamos.
Rosa foi criada na roça e desde os oito anos trabalhou nas lides rurais de apanhadora de café, milho e de frutas. Mais tarde nas tarefas da Casa Grande da Fazenda, como doméstica. De lá foi trabalhar na casa de família da cidade e há 25 anos mudou-se para nossa casa em São José dos Campos, SP.
Anos atrás, quando estive em Brasília, juntamos todas as provas: residência na roça em casa de camarada, folha de freqüência em escola rural, declaração de ex-patrões fazendeiros. Nada foi suficiente para que ganhasse à época sua aposentadoria, como mulher, após 30 anos de trabalho que se iniciou com menos de 10 anos. Perdeu a causa no âmbito administrativo e judicial. Continuamos pagando a contribuição sob três salários mínimos por mais 15 anos.
Finalmente, em abril de 2009, foi ao INSS e saiu de lá devidamente aposentada depois de 30 anos de contribuinte como empregada doméstica, dos quais 25 anos nos ajudando a viver. Rosa é de boa paz e saiu da agência do INSS conformada com o que acontecera.
O inconformismo foi meu quando soube do ocorrido: Rosa estava aposentada desde 1 de abril com o valor de R$690,00 reais mensais. Rosa contribuiu nos últimos 15 anos sob três salários mínimos. Hoje três salários seriam R$ 1395,00. A primeira injustiça é que os salários de contribuição corrigidos não se equivaleram a isto. Ao final o salário de contribuição corrigido deu como média R$ 1097..... Já se foram 25% do devido.
Aí veio o pior: aplicação do fator previdenciário: 66,666 % o que resultou no valor de aposentadoria final de R$ 690,00 o equivalente à metade do devido e esperado.
A covardia não ficou por aí pois, veio declarado: este é o valor pois, a expectativa de vida da Rosa é de mais 26 anos. Rosa, pelos cálculos previdenciários terá como expectativa de uma vida longa: 79 anos. É a tabela de expectativa de vida para uma mulher da região sudeste nascida em 1956!!!!!!!
Se quiser melhorar um pouquinho esta aposentadoria o INSS foi extremamente benevolente: deram-lhe um prazo de trabalho de mais sete anos para atingir a idade limite para mulher de sessenta anos de idade. Se aceitasse a aplicação desta tabela alternativa Rosa se aposentaria com 52 anos de efetivo trabalho, 37 e sete com comprovação com carnê e 15 anos com trabalho rural não registrada como milhões de cidadãos que sustentam a nós da cidade.
E agora? O que a Rosa deve fazer se seu sonho de voltar Minas e cuidar de sua casa e de sua horta, deixou de ser viável? Negar o beneficio da aposentadoria e trabalhar mais sete anos? Eis o drama colocado.
Fez a opção possível. Aceitou sua aposentadoria sob o argumento que depois pode piorar, ainda mais. Retardou seu sonho de independência e optou por poupar por mais alguns anos para depois usufruir.
Rosa, a nossa Rosa especial, neste particular, mostra apenas a dura situação de milhões de brasileiros contribuintes do sistema previdenciário público brasileiro.

[1] Gilson Carvalho - Médico Pediatra e de Saúde Pública - O autor adota a política de copyleft podendo este texto ser copiado e divulgado por qualquer meio, independente de autorização do autor. O autor tem seus textos publicados no site www.idisa.org.br

segunda-feira, 22 de junho de 2009

Obama promulga nova lei regulamentando cigarros e tabaco


WASHINGTON (Reuters) -

O presidente norte-americano, Barack Obama, assinou na segunda-feira um projeto de lei que, pela primeira vez, confere ao governo dos EUA poderes amplos para regulamentar os cigarros e outros produtos à base de tabaco.
Obama, que contou ter começado a fumar quando era adolescente, disse que a nova lei vai reduzir a capacidade das empresas de tabaco de divulgar seus produtos junto a crianças e adolescentes.
"Ela vai forçar essas empresas a admitirem mais clara e publicamente os efeitos prejudiciais e mortais dos produtos que vendem", disse Obama, acrescentando que sabe como é difícil para os fumantes abandonarem o cigarro.
"Sei como pode ser difícil romper com esse hábito, quando ele já acompanha você há muito tempo."
A lei marcou o ponto culminante de uma busca lançada há mais de uma década por parlamentares adversários da indústria do tabaco para colocar os cigarros sob o controle da Administração de Alimentos e Medicamentos dos EUA (FDA, na sigla em inglês).
A lei autoriza a FDA a impor novos e rígidos limites à fabricação e ao marketing dos produtos à base de tabaco, mas não chega a proibir os cigarros ou seu ingrediente causador de dependência, a nicotina.
Quase 20 por cento dos norte-americanos são fumantes, e o tabaco mata 440 mil pessoas por ano nos Estados Unidos em função de câncer, doenças cardíacas, enfisema e outras doenças, dizem autoridades.

quinta-feira, 11 de junho de 2009

Celebridades serão proibidas em campanhas de medicamentos.


Entram em vigor no dia 16 de junho as novas normas e restrições da Anvisa sobre a publicidade de medicamentos. As celebridades, por exemplo, não poderão mais dizer que utilizam determinado remédio e sugeri-lo ao telespectador em propagandas. Distribuir amostras grátis e brindes também será vetado.


Anvisa veta concursos de remédios

FERNANDA BASSETTE


A Anvisa (Agência Nacional de Vigilância Sanitária) suspendeu ontem em todo o país a veiculação de duas campanhas publicitárias que realizavam concursos culturais para promover os medicamentos Anador e Aspirina, isentos de prescrição médica e usados no tratamento da dor. A decisão foi publicada no "Diário Oficial da União" de ontem.


De acordo com Maria José Delgado Fagundes, gerente de monitoramento e fiscalização de propagandas da Anvisa, as duas campanhas apresentam irregularidades e cometem infrações sanitárias, pois estimulam ou induzem o uso indiscriminado dos remédios. Além disso, afirma Delgado, as campanhas descumprem o decreto nº 70. 951/1972, que diz que medicamentos não podem ser objetos de promoção que distribuam prêmios - como aconteceu nas duas campanhas suspensas pela agência.
O concurso da Aspirina, por exemplo, tem como tema "Um mundo com menos dor". O participante deve criar uma frase que responda à pergunta "O que você faria para ter um mundo com menos dor?" e ainda precisa indicar o nome de mais três amigos - que também serão premiados, caso sua frase seja escolhida. O concurso estava com inscrições abertas até o dia 19 deste mês e os vencedores recebem prêmios em títulos de capitalização (entre R$ 10 mil e R$ 25 mil) - os amigos ganham videogames, celulares e tocadores de MP3. O site com a campanha foi tirado do ar ontem.
Já o concurso do Anador pedia que o participante criasse uma frase sobre o tema "Como levar a vida sem dor de cabeça". As cinco melhores dicas ganhariam um ano de supermercado (com valores pré-pagos entre R$ 300 e R$ 500 mensais). As inscrições foram encerradas no dia 29 de maio. "Para nós [da Anvisa] está muito claro que esse tipo de campanha induz a pessoa a consumir de maneira indiscriminada esses medicamentos. Uma propaganda que dá prêmio de R$ 25 mil e ainda premia mais três pessoas quer atrair o consumidor oferecendo algo maior que os riscos do medicamento", diz Fagundes.
De acordo com a gerente, não é a primeira vez que a Anvisa suspende campanhas de medicamentos que incluíam concursos para atrair clientes. "As campanhas estão irregulares. Todas as técnicas apresentadas acabam levando à fixação do produto como o ideal para o combate à dor de cabeça", diz.
Caráter cultural A Bayer Health Care, responsável pela Aspirina, e a Boehringer Ingelheim do Brasil, responsável pelo Anador, informaram, por meio de suas assessorias de imprensa, que ainda não foram notificadas pela Anvisa sobre a decisão. As duas empresas afirmam que os concursos promovidos são "exclusivamente de caráter cultural", que são abertos a qualquer participante e que em momento nenhum vinculam a participação no concurso à aquisição do medicamento. As indústrias também afirmam que produziram as campanhas de acordo com a legislação sanitária vigente.


Fonte: Folha de S. Paulo, 10/6/09

quinta-feira, 21 de maio de 2009

Ameaças internacionais ao acesso a medicamentos genéricos.

19/5/2009 23h23
Cláudia Chamas*
OPINIÃORecentemente, 500 quilos do medicamento Losartan, produzido pela empresa Dr.Reddy's, foram embarcados na Índia com destino ao Brasil. No transbordo em aeroporto na Holanda, a carga do anti-hipertensivo foi retida pela aduana local sob a acusação de violação de patente, embora não contasse com proteção patentária na Índia ou no Brasil. Foi alegado que a existência de um regime proprietário naHolanda constituiria elemento suficiente para obstaculizar o livre trânsito da mercadoria. Vale ressaltar que a origem do fabricante era bem conhecida enãohavia intenção de comercializar a droga em território europeu.
O caso Losartan é apenas um entre vários. Em nível internacional, há uma coordenação de interesses dos países desenvolvidos no sentido de usar os conceitos de falsificação e pirataria de medicamentos para além dos interesses de defesa da saúde das pessoas. A regulação desses conceitos em esfera externa às questões de saúde pública constitui medida comercial, justificando ações preventivas em supostos casos de violação de patentes. A expansão dessa abordagem para um acordo global viabilizaria apreensões de genéricos sob a justificativa de crimes de ofensa à propriedade intelectual.
Em janeiro passado, partindo-se de orientações da Força-Tarefa Internacional Anti-Contrafação de Produtos Médicos, foram realizadas tentativas de legitimar política semelhante à europeia no âmbito do Conselho Executivo da OMS. Esses movimentos não vingaramem função de forte oposição do Brasil, com apoio da Índia, de Bangladesh e de outros países em desenvolvimento. Definitivamente, a OMS não é um fórum para a discussão de normas de aplicação de propriedade intelectual. Infelizmente, essa vitória pode ser temporária, posto que não cedem às pressões por medidas de controle mais severas.
Em fevereiro, Brasil e Índia levaram o assunto ao Conselho Geral da Organização Mundial do Comércio (OMC). O pronunciamento do diretor da Organização, Pascal Lamy, revelou a relevância do caso para a organização, ao destacar que merecem apoio os esforços para garantir o acesso a medicamentos e que barreiras ao comércio genuíno de genéricos devem ser evitadas. Em março passado, o representante permanente brasileiro na OMC, embaixador Roberto Azevedo foi porta-voz de um vigoroso protesto naquela organização (feito também em nome da Índia), no qual chamava a atenção para o episódio, por ele classificado como "uma séria violação das regras da OMC".
A posição do governo brasileiro, expressa pelo Itamaraty, é inequívoca: pirataria e falsificação de medicamentos têm a ver com saúde pública e sua extensão a assuntos ligados à propriedade intelectual servirá apenas para garantir novas pretensões de lucros das indústrias farmacêuticas e dificultar o acesso de populações pobres do mundo a medicamentos essenciais.
As retenções dos últimos meses parecem não levar em consideração todo o empenho dos países em desenvolvimento visando a uma leitura dos acordos Trips mais condizente com a ampliação do acesso a medicamentos essenciais. Contraria o interesse público expresso na Declaração sobre o Acordo Trips e a Saúde Pública (2001), na agenda do Desenvolvimento da Organização Mundial da Propriedade Intelectual (2007) e na Resolução sobre Estratégia Mundial e Plano de Ação para Saúde Pública, Inovação e Propriedade Intelectual da OMS (2008).
Sucessivas retenções de cargas de genéricos em rota para o Brasil fragilizariam a política de acesso universal a medicamentos. O País importa regularmente princípios ativos de outros países, inclusive de países em desenvolvimento. A proliferação deste tipo de norma afrontaria nossos propósitos de busca por produtos de qualidade ao menor custo possível. O segmento mais afetado negativamente seria a população de baixa renda, usuária intensiva do Sistema Único de Saúde (SUS).
No futuro próximo, tememos a construção de um cenário ainda menos generoso para os sistemas de saúde dos países do Sul. No entanto, acreditamos no bom senso dos formuladores de política dos países desenvolvidos que deveriam rever suas posições unilaterais e não criar obstáculos à produção e distribuição de genéricos, posicionando o interesse humanitário acima das ilimitadas pretensões de lucro. Brasil e Índia têm apontado à OMC vários casos de violação das regras comerciais.
*Pesquisadora do Centro de Desenvolvimento Tecnológico em Saúde da Fiocruz
Fonte: Gazeta mercantil/SP, 19/5/09

quarta-feira, 20 de maio de 2009

VIII Conferência Municipal de Saúde de Joinville


Data: 05 e 06 de junho de 2009.
Local: Auditório Central da Univille / Campus Universitário.

A Secretaria Municipal da Saúde de Joinville e o Conselho Municipal de Saúde estão promovendo nos dias 05 e 06 de junho a VIII Conferência Municipal da Saúde que tem como objetivo avaliar a situação da saúde de Joinville, assim como definir diretrizes para a plena garantia da saúde como direito fundamental do ser humano e como política de Estado.
Consideramos que a conferência municipal é o marco do fortalecimento da participação social na plena garantia da implementação do SUS. Nesta oportunidade estarão sendo também cadastradas também novas entidades que comporão o Conselho Municipal de Saúde.
Convidamos toda a população para que neste dia compareçam e juntos possamos fortalecer o Sistema Único de Saúde em nosso município.

domingo, 17 de maio de 2009

88% dos médicos do PSF tem contratos precários.



80% dos médicos do PSF tem contratos precários, enfatizou Geraldo Guedes


Durante audiência pública sobre Precarização do Trabalho Médico, o conselheiro do Conselho Federal de Medicina (CFM), Geraldo Guedes, chamou a atenção que 80% dos médicos que trabalham no Programa de Saúde da Família (PSF) tem contratos precários. O médico também disse que dentre dois milhões de trabalhadores da saúde, 800 mil tem trabalhos precários. “O que acaba gerando grande rotatividade e falta dos trabalhadores. Os médicos precisam de uma Carreira de Estado e um Plano de Cargos, Carreiras e Vencimentos, além de um salário digno e a implementação da CBHPM no SUS”, disse Geraldo Guedes. Dados referendados pelo coordenador de gestão de trabalho em saúde do Ministério da Saúde, Henrique Vitalino.

O evento, promovido pela Comissão de Trabalho, de Administração e de Serviço Público (CTASP), da Câmara dos Deputados, aconteceu nesta quinta-feira, dia 14 de maio. O requerimento foi do deputado Daniel Almeida (PCdoB-BA), que acredita que o cenário brasileiro, desfavorável aos médicos, tem se refletido na sociedade por meio da baixa qualidade do atendimento prestado aos usuários dos serviços de saúde.

Para Geraldo Guedes, este quadro é responsabilidade do sub-financiamento do SUS e deficiências da gestão. O médico voltou a cobrar que parlamentares se empenhem a votar a regulamentação da Emenda Constitucional 29. A reunião também teve representantes da Comissão Nacional Pró-SUS – composta pelo CFM, AMB e FENAM -, Ministério do Trabalho e Sindicato dos Médicos do estado da Bahia.

Salário mínimo profissional Na próxima quarta-feira (20), a Comissão de Trabalho vota o Projeto de Lei 3.734/2008, que altera o salário mínimo profissional dos médicos. A reunião acontece no plenário 12, anexo II, às 9h30. O PL 3.734, de autoria do deputado Ribamar Alves (PSB-MA), prevê mudanças na lei 3.999, de 1961, que altera o salário mínimo dos médicos e cirurgiões dentistas. O texto sugere que seja modificada a redação da lei que estabelece o cumprimento de 2h a 4h diárias, passando a estabelecer o período de 20h semanais, como já consagrado hoje pelos médicos.

Durante a sessão será lido o relatório do deputado Mauro Nazif (PSB-RO) que propõe ainda algumas alterações. A principal mudança será no valor do piso salarial estipulado pelo projeto em R$ 7 mil. A Lei nº 3.999 previa que o salário mínimo dos médicos fosse três vezes o salário mínimo em vigor no país, o que, nos dias de hoje, corresponderia a um salário de R$ 1.245,00. De acordo com o projeto original, o reajuste seria baseado no salário mínimo. Agora, com as alterações de Nazif, o reajuste terá como base o INPC.