
Apesar de a descentralização e a participação democrática serem princípios do SUS, previstos até constitucionalmente, os avanços na formulação democrática e participativa das políticas tem sido muito limitados.
O peso do Ministério da Saúde, em função também de sua capacidade de aportes financeiros, tem sido desproporcional em relação aos demais gestores, principalmente em relação aos gestores municipais na formulação das políticas. Na prática, resta aos municípios implementar as políticas nacionais, tendo ainda que fazê-lo driblando o filtro das secretarias estaduais. Então há desequilíbrio entre gestores – o que é grave, considerando a extrema heterogeneidade e diversidade de necessidades existente no país. E isso tudo, apesar da Tripartite e do Pacto Pela Saúde. Gestores municipais precisam de apoio inclusive para ampliar sua capacidade de formulação local!!! Os CGRs precisam de apoio ativo para cumprirem seu papel!!
Mas as políticas de saúde precisam ser formuladas e implementadas não somente com base na atuação dos gestores!! O diálogo direto com trabalhadores da saúde, movimentos sociais (não só os populares, mas também o de residentes, o estudantil, o de mulheres etc.), instituições de ensino e outros atores políticos é fundamental. A política nacional de AIDS é uma demonstração de que essa amplitude de diálogo na formulação e na implementação agrega potência e capilaridade a uma política! Devemos aprender com essa experiência!!!
Definitivamente não basta imaginar que o precário diálogo com os espaços de controle social seja suficiente para garantir porosidade e capilaridade!!!
Democracia também se constroi em cima de temas e agendas concretas que convocam, que interessam e mobilizam. Por exemplo, a produção da gestão do cuidado em saúde pode ser espaço precioso de construção compartilhada (incluindo também trabalhadores e usuários na produção das políticas no cotidiano). Integralidade não se produz por decreto, requer gestão cotidiana e sua produção precisa ocupar um lugar mais evidente dentro das agendas da gestão. Poderia ser uma das vertentes estrutrantes da construção das redes de atenção e das regiões de saúde! É o eixo estruturante da educação permanente em saúde! É o eixo estruturante de uma agenda de transformação da formação!
Democratizar também significa investir e apostar no fortalecimento e na ampliação da capacidade de formulação e vocalização dos diferentes atores sociais!!!
Sem essa radical democratização na produção e implementação das políticas o SUS não vai se fortalecer como precisa!
Sem essa construção da democracia no cotidiano não avançamos na qualificação da atenção à saúde!
E não ganhamos a legitimidade que precisamos conquistar junto à população!
Então, reafirmo a questão: o Ministério da Saúde propõe-se a cumprir esse papel de abrir-se ao diálogo e ã negociação mais ampla na formulação e implementação das políticas de saúde?