Guerra, drogas e política, elementos do mundo bipolar
Noam Chomsky*
“A humanidade progrediu muito tecnologicamente, cientificamente, industrialmente, mas esta evolução material surpreendente difere muito da outra evolução, a que alimenta o ideal do espírito humano: paz, justiça, bem-estar... Hoje, mais do que nunca, vivemos num mundo darwiniano, onde impera a lei do mais forte, uma selva, onde os interesses de uns poucos poderosos passam primeiro que o bem e a saúde comum de todos, isso sem falar de querer salvar o planeta e seu desafio ecológico. Chomsky desenvolve esses aspectos.”
O site Voltairenet assim apresenta longo texto do diário La Jornada, do México, que festejou seus 25 anos em 21 de setembro com conferência de duas horas do professor Noam Chomsky, do MIT. O palco era a monumental Sala Nezahualcóyotl, ela mesma atração de causar inveja a instituições de ensino de países periféricos e até centrais: com 2.376 lugares, está localizada no Centro Cultural Universitario da Universidad Nacional Autónoma de México, um point especial da capital mexicana, com teatros, cafés e livrarias.
A sala tem acústica inovadora pelo projeto em forma de “vinhedo”, o que permite ao público a mesma visão que o músico tem do maestro. Foi construída para sede da Orquestra Filarmônica da própria universidade, de nível internacional, que lá toca nas noites de sábado e nas tardes de domingo. Em julho e agosto se apresenta ali a Orquesta Sinfónica de Minería, com músicos de destaque de todo o mundo. Mas naquela segunda-feira de setembro estudantes e convidados do jornal formaram filas de até duas horas para ouvir, na que é considerada a mais importante sala de concertos da América Latina, o mais importante crítico do imperialismo e da sociedade da desinformação.
A sala tem acústica inovadora pelo projeto em forma de “vinhedo”, o que permite ao público a mesma visão que o músico tem do maestro. Foi construída para sede da Orquestra Filarmônica da própria universidade, de nível internacional, que lá toca nas noites de sábado e nas tardes de domingo. Em julho e agosto se apresenta ali a Orquesta Sinfónica de Minería, com músicos de destaque de todo o mundo. Mas naquela segunda-feira de setembro estudantes e convidados do jornal formaram filas de até duas horas para ouvir, na que é considerada a mais importante sala de concertos da América Latina, o mais importante crítico do imperialismo e da sociedade da desinformação.
A autora do texto é Blanche Petrich, e a tradução da conferência de Chomsky, em inglês, é de Ramón Vera Herrera. Que lições nos deixaram duas décadas de uma realidade mundial unipolar?, pergunta Blanche. Chomsky dissertou longamente sobre esta pergunta e deixou ideias surpreendentes numa “conferência magistral” na Nezahualcóyotl, transmitida ao vivo pela TV Unam e 12 emissoras públicas e universitárias que fizeram pool para enviar o sinal a todo o México. Ideias surpreendentes como a sobre Barack Obama, presidente dos Estados Unidos, descrito como mercadoria de marketing tão exitosa que no ano passado mereceu, da indústria de publicidade, o primeiro lugar entre as campanhas promocionais. Mais famoso que os computadores Apple. Tão vendável como pasta de dentes ou remédio.
Ou a ideia de que a invasão americana ao Panamá, em 1989, hoje nota de rodapé para muitos, foi na realidade o sinal de que Washington iniciava, pela ficção da guerra contra as drogas, uma nova etapa de dominação, quando se haviam passado apenas algumas semanas da queda do Muro de Berlim.
Ou a ideia de que a invasão americana ao Panamá, em 1989, hoje nota de rodapé para muitos, foi na realidade o sinal de que Washington iniciava, pela ficção da guerra contra as drogas, uma nova etapa de dominação, quando se haviam passado apenas algumas semanas da queda do Muro de Berlim.
Ou, ainda, um dado pontual assombroso: a “preocupação”, em 1990, numa oficina sobre desenvolvimento de estratégias para a América Latina no Pentágono, com a eventual “abertura democrática” no México, que ousara desafiar os Estados Unidos. A solução proposta: impor a nosso país um tratado que prenderia o México às reformas neoliberais. A proposta se materializou no Tratado de Livre Comercio (TLC), que entrou em vigor em 1994 [assinado pelo então presidente Carlos Salinas de Gortari, do PRI, os mexicanos consideram esse TLC “infame”].
Assim chegou ao momento atual a resenha de Chomsky das duas últimas décadas: o processo de remilitarização da América Latina, com sete novas bases na Colômbia e a reativação da Quarta Frota de sua Marinha. Para aterrissar na visão de um continente, o nosso, começando a libertar-se por si mesmo deste jugo com governos que desafiam as diretrizes de Washington, mas sobretudo com movimentos populares de massas de grande significado.
Coerente, prossegue a autora, depois de concluir sua conferência e dar entrevista à TV Unam, o acadêmico ainda teve forças [aos 81 anos] para encontrar a ativista Trinidad Ramírez, dirigente da Frente de Povos em Defesa da Terra, de San Salvador Atenco, mulher do preso político Ignacio do Valle, que agradeceu ao conferencista por assinar a segunda campanha pela libertação de 11 presos, e o presenteou com o lenço vermelho do movimento.
A seguir, a fala de Chomsky
Ao pensar em questões internacionais, é útil ter presentes vários princípios de natureza e importância consideráveis. O primeiro é a máxima de Tucídides: os fortes fazem o que querem, e os fracos sofrem como é de praxe. Isso tem um importante corolário: todo Estado poderoso descansa nos especialistas em apologética, cuja tarefa é mostrar que o que fazem os fortes é nobre e justo e o que sofrem os fracos é sua culpa. No Ocidente contemporâneo, estes especialistas são chamados intelectuais e, com exceções marginais, cumprem sua tarefa encomendada com habilidade e sentimentos de superioridade moral, apesar de suas alegações disparatadas. Sua prática remonta às origens da história registrada.
Os principais arquitetos
Um segundo ponto, que não se pode esquecer, expressou-o Adam Smith [1723-1790]. Ele se referia à Inglaterra, a maior potência de seu tempo, mas as observações são aplicáveis. Smith dizia que os principais arquitetos de políticas públicas na Inglaterra eram os comerciantes e os fabricantes, que se asseguravam de que seus interesses fossem atendidos por tais políticas, por mais prejudicial que fosse o efeito em outros – inclusive o povo da Inglaterra – e maior a severidade contra os que sofriam a selvagem injustiça dos europeus noutras partes.
Smith foi uma dessas raras figuras que se apartaram da prática normal de retratar a Inglaterra como potência angelical, única na história do mundo, dedicada sem egoísmo ao bem-estar dos bárbaros. Exemplo revelador, nestes termos exatos, é um ensaio clássico de John Stuart Mill, um dos mais decentes e inteligentes intelectuais, que explicava por que a Inglaterra tinha que culminar sua conquista da Índia pelos mais puros fins humanitários. Escreveu justamente no momento das maiores atrocidades da Inglaterra na Índia, quando o verdadeiro fim de uma conquista maior era permitir à Inglaterra apoderar-se do monopólio do ópio e estabelecer a mais extraordinária empresa de narcotráfico da história mundial, obrigando assim a Índia, com lanchas canhoneiras e venenos, a aceitar as mercadorias britânicas que a China não queria.
A pregação de Mill é a norma cultural. A máxima de Smith é a norma histórica.
Hoje, os principais arquitetos das políticas públicas não são os comerciantes e os fabricantes, mas as instituições financeiras e as corporações transnacionais.
Uma refinada versão atual da máxima de Smith é a teoria da inversão em política, desenvolvida pelo economista político Thomas Ferguson, que considera que as eleições são a ocasião para que grupos de investidores se unam com o fim de controlar o Estado, em essência comprando as eleições.
Smith foi uma dessas raras figuras que se apartaram da prática normal de retratar a Inglaterra como potência angelical, única na história do mundo, dedicada sem egoísmo ao bem-estar dos bárbaros. Exemplo revelador, nestes termos exatos, é um ensaio clássico de John Stuart Mill, um dos mais decentes e inteligentes intelectuais, que explicava por que a Inglaterra tinha que culminar sua conquista da Índia pelos mais puros fins humanitários. Escreveu justamente no momento das maiores atrocidades da Inglaterra na Índia, quando o verdadeiro fim de uma conquista maior era permitir à Inglaterra apoderar-se do monopólio do ópio e estabelecer a mais extraordinária empresa de narcotráfico da história mundial, obrigando assim a Índia, com lanchas canhoneiras e venenos, a aceitar as mercadorias britânicas que a China não queria.
A pregação de Mill é a norma cultural. A máxima de Smith é a norma histórica.
Hoje, os principais arquitetos das políticas públicas não são os comerciantes e os fabricantes, mas as instituições financeiras e as corporações transnacionais.
Uma refinada versão atual da máxima de Smith é a teoria da inversão em política, desenvolvida pelo economista político Thomas Ferguson, que considera que as eleições são a ocasião para que grupos de investidores se unam com o fim de controlar o Estado, em essência comprando as eleições.
Como mostra Ferguson, esta teoria é um mecanismo muito bom para predizer políticas públicas durante longo período. Então, para o que ocorreu em 2008, devíamos ter antecipado que os interesses das indústrias financeiras teriam prioridade para o governo de Obama. Foram seus principais provedores de fundos e se inclinaram muito mais a Obama do que a McCain. E assim foi o resultado.
O semanário de negócios Business Week se ufana agora de que a indústria das seguradoras ganhou a batalha da atenção à saúde, e de que as instituições financeiras que criaram a crise atual emergem incólumes e ainda fortalecidas, após o enorme socorro público – o que acomoda o cenário para a próxima crise –, apontam os editores. E acrescentam que outras corporações aprenderam valiosas lições destes triunfos e agora organizam grandes campanhas para frear a aprovação de qualquer medida relacionada a energia e conservação (por suave que seja), com pleno conhecimento de que frear essas medidas negará a seus netos qualquer possibilidade de sobrevivência decente. Claro, não é que sejam más pessoas, nem ignorantes. Ocorre que as decisões são imperativos institucionais. Os que decidem não seguir as regras são excluídos, às vezes de forma notável.
As eleições nos Estados Unidos são montagens espetaculares, extravaganzas, conduzidas pela enorme indústria de relações públicas que floresceu há um século nos países mais livres do mundo, Inglaterra e Estados Unidos, cujas lutas populares haviam conquistado liberdade suficiente para que o público não fosse tão facilmente controlado. Então, os arquitetos das políticas públicas se deram conta de que seria necessário controlar atitudes e opiniões. Um dos momentos da tarefa era controlar as eleições.
Os Estados Unidos não são uma democracia guiada como o Irã, onde candidatos requerem a aprovação dos clérigos dominantes. Em sociedades livres, como os Estados Unidos, são as concentrações de capital que aprovam candidatos e, entre os que passam pelo filtro, os resultados são quase sempre determinados pelos gastos de campanha. Os operadores políticos são muito conscientes de que com frequência o público discorda profundamente dos arquitetos das políticas públicas. Então, as campanhas eleitorais evitam aprofundar qualquer ponto e privilegiam palavras de ordem, floreios de oratória, personalidades e mexericos.
Cada ano a indústria da publicidade outorga um prêmio à melhor campanha promocional do ano. Em 2008 o prêmio foi para a campanha de Obama, derrotando até os computadores Apple. Os executivos estavam eufóricos, ufanavam-se abertamente de que este era seu êxito maior desde que começaram a promover candidatos como se fossem pasta de dentes ou remédios que associam a estilos de vida – técnicas que ganharam força no período neoliberal, principalmente com Reagan.
Nos cursos de economia, aprende-se que os mercados se baseiam em consumidores informados que elegem racionalmente suas opções. Mas quem vê um anúncio de TV sabe que as empresas destinam enormes recursos a criar consumidores uniformizados que elegem irracionalmente suas opções. Os mesmos dispositivos usados para derrubar mercados se adaptam ao objetivo de socavar a democracia, criando esses eleitores desinformados que tomarão decisões irracionais a partir de limitada série de opções compatíveis com os interesses dos partidos, que no fundo são facções competidoras de um só partido empresarial.
Tanto no mundo dos negócios como no político, os arquitetos das políticas públicas são constantemente hostis com os mercados e com a democracia, exceto quando buscam vantagens temporais. A retórica pode dizer outra coisa, mas os fatos são bastante claros.
A máxima de Adam Smith tem algumas exceções, que são muito instrutivas. Um exemplo contemporâneo importante são as políticas de Washington sobre Cuba desde que esta obteve sua independência, há 50 anos. Os EUA são uma sociedade que goza de liberdade pouco comum, assim que contamos com bom acesso a registros internos que revelam o pensamento e os planos dos arquitetos das políticas públicas.
Poucos meses depois da independência de Cuba, o governo de Eisenhower formulou planos secretos para derrocar o regime e iniciou programas de guerra econômica e terrorismo, cuja escala foi aumentada bruscamente por Kennedy e que continuam em várias formas até nossos dias. Desde o início, a intenção explícita foi castigar o suficiente o povo cubano. Seu crime: desafiar políticas americanas que datavam da década de 1820, quando a Doutrina Monroe declarou a intenção dos EUA de dominar o hemisfério ocidental sem tolerar interferência alguma de fora ou de dentro.
Ainda que as políticas bipartidárias sobre Cuba concordem com a máxima de Tucídides, entram em conflito com o princípio de Adam Smith, e nos proporcionam um olhar especial sobre como se configuram as políticas. Durante décadas, o povo americano apoiou a normalização das relações com Cuba.
Ignorar a vontade da população é normal, mas neste caso é mais interessante que setores poderosos do mundo dos negócios favoreçam também a normalização: as agroempresas, as corporações farmacêuticas e de energia e outros que normalmente fixam os marcos de trabalho básicos para a construção de políticas. Neste caso, seus interesses são atropelados por um princípio das relações internacionais que não recebe reconhecimento apropriado nos tratados acadêmicos da matéria: poderíamos chamá-lo o princípio da Máfia.
O capo não tolera desafios, nem mesmo do pequeno comerciante que não possa lhe pagar proteção. É muito perigoso. Deve, portanto, ser erradicado brutalmente, de modo que outros entendam que desobedecer não é opção. Se alguém conseguir desafiar o amo pode se tornar um vírus que dissemina o contágio, para tomar emprestado o termo usado por Kissinger quando se preparava para derrubar o governo de Allende. Essa tem sido a doutrina principal da política exterior americana no período de seu domínio global, e tem muitos precedentes. Outro exemplo, que não tenho tempo de tratar aqui, é a política americana para o Irã a partir de 1979.
Tomou tempo cumprir os objetivos da Doutrina Monroe, e alguns deles ainda esbarram em muitos impedimentos. O objetivo final perdura e é inquestionável. Ganhou significado maior quando, após a Segunda Guerra Mundial, os Estados Unidos se converteram em potência global dominante e superando sua rival britânica. A justificativa foi analisada com lucidez.
Foto: Marco Peláez/La Jornada
Por exemplo, quando Washington se preparava para derrubar Allende, o Conselho de Segurança Nacional apontou que se os Estados Unidos não conseguissem controlar a América Latina não poderia esperar consolidar a ordem em nenhuma parte do mundo, quer dizer, impor com eficácia seu domínio sobre o planeta. A credibilidade da Casa Branca se veria solapada, como o expressou Henry Kissinger. Outros também poderiam tentar seu desafio se o vírus chileno não fosse destruído antes que se disseminasse o contágio. Portanto, a democracia parlamentar chilena tinha que ir-se, e assim ocorreu no 11 de setembro, em 1973, que está marcado na história do Ocidente, que em termos de consequências para o Chile e além supere, em muito, os terríveis crimes do 11 de setembro de 2001.
Embora as máximas de Tucídides e Smith e o princípio da Máfia não deem conta de todas as decisões de política exterior, cobrem uma gama bastante ampla, como também o faz o corolário referente aos intelectuais. Não são o fim da sabedoria, mas se encaminham para tal.
Com o contexto proporcionado até o momento, vejamos o momento unipolar, que é o tópico de grande quantidade de discussões acadêmicas e populares desde que ruiu a União Soviética, há 20 anos, deixando os Estados Unidos como única superpotência global, em vez de ser apenas a primeira superpotência, como antes. Aprendemos muito sobre a natureza da Guerra Fria e o desenvolvimento dos acontecimentos desde então, observando como reagiu Washington à desaparição de seu inimigo global, essa conspiração monolítica e desapiedada para apoderar-se do mundo, como a descrevia Kennedy.
Semanas depois da queda do Muro de Berlim, os Estados Unidos invadiram o Panamá. O propósito era sequestrar um delinquente menor, levado à Flórida e sentenciado por crimes que cometera, em grande medida, enquanto trabalhava para a CIA. De valioso amigo se converteu em demônio malvado por tentar adotar atitude desafiante no apogeu das guerras terroristas de Reagan na Nicarágua.
A invasão matou milhares de pessoas pobres no Panamá, segundo fontes panamenhas, e reinstaurou o domínio dos banqueiros e narcotraficantes ligados aos Estados Unidos. Foi apenas algo mais que uma nota de pé de página na história, mas em alguns aspectos rompeu a tendência. Um deles foi que se fez necessário contar com um novo pretexto, e este chegou rápido: a ameaça de narcotraficantes de origem latina que buscam destruir os Estados Unidos. Richard Nixon declarara guerra às drogas, mas esta assumiu novo significado no momento unipolar.
Sofisticação tecnológica do Terceiro Mundo
A necessidade de um novo pretexto guiou também a reação oficial em Washington ante o colapso da superpotência inimiga. O governo de Bush pai traçou o novo rumo em poucos meses: em resumo, tudo se manterá igual, mas teremos novos pretextos. Ainda requeremos um enorme sistema militar, mas agora há uma nova justificativa: a sofisticação tecnológica das potências do Terceiro Mundo. Temos que manter a base industrial de defesa, eufemismo para descrever a indústria de alta tecnologia apoiada pelo Estado. Devemos manter forças de intervenção dirigidas às regiões ricas em energia do Oriente Médio, onde não responsabilizaríamos o Kremlin pelas ameaças a nossos interesses, ao contrário das décadas de engano quando isso ocorria.
Tudo isso passou em silêncio, mal se notou. Mas para quem quer entender o mundo, é ilustrativo. Como pretexto para uma intervenção, foi útil invocar a guerra às drogas, mas isso como pretexto é muito estreito. Era preciso um mais forte. Rapidamente declararam uma revolução normativa que conferia aos Estados Unidos o direito a intervenções por razões humanitárias escolhidas, por definição, a mais nobre das razões.
Para expressá-lo com sutileza, nem as vítimas tradicionais se mexeram. As conferências de alto nível no Sul global condenaram com amargura o “assim chamado direito a uma intervenção humanitária”. Era necessário um refinamento adicional, e se desenhou o conceito de responsabilidade de proteger. Os que prestam atenção à história não se surpreenderão ao descobrir que as potências ocidentais exercem sua responsabilidade de proteger de modo muito seletivo, em adesão estrita às três máximas descritas. Os fatos perturbam de tão óbvios, e requerem considerável agilidade das classes intelectuais.
Para expressá-lo com sutileza, nem as vítimas tradicionais se mexeram. As conferências de alto nível no Sul global condenaram com amargura o “assim chamado direito a uma intervenção humanitária”. Era necessário um refinamento adicional, e se desenhou o conceito de responsabilidade de proteger. Os que prestam atenção à história não se surpreenderão ao descobrir que as potências ocidentais exercem sua responsabilidade de proteger de modo muito seletivo, em adesão estrita às três máximas descritas. Os fatos perturbam de tão óbvios, e requerem considerável agilidade das classes intelectuais.
Conforme o momento unipolar se iluminou, outra questão que foi o destino da Otan. A justificativa tradicional para a organização era a defesa contra as agressões soviéticas. Ao desaparecer a União Soviética, evaporou-se o pretexto. As almas ingênuas, que têm fé nas doutrinas do momento, esperavam que a Otan desaparecesse também; pelo contrário, expandiu-se com rapidez. Os detalhes revelam muito sobre a Guerra Fria e o que se seguiu. A nível mais geral revelam como se formam e se executam as políticas dos Estados.
À medida que ruiu a União Soviética, Mikhail Gorbachev fez uma espantosa concessão: permitiu que uma Alemanha unificada se unisse a uma aliança militar hostil encabeçada pela superpotência global, embora a Alemanha sozinha tivesse quase destruído a Rússia em duas ocasiões no século 20. Contudo, foi um quid pro quo, um isso por aquilo, uma reciprocidade. O governo de Bush prometeu a Gorbachev que a Otan não se estenderia à Alemanha Oriental, e não se aproximaria mais do Oriente.
Também assegurou ao mandatário soviético que a organização se transformaria num ente mais político. Gorbachev propôs também uma zona livre de armas nucleares do Ártico ao Mar Negro, um passo para uma zona de paz que eliminaria qualquer ameaça à Europa ocidental e oriental. Tal proposta não obteve consideração alguma. Pouco depois chegou Bill Clinton ao cargo. Logo se desvaneceram os compromissos de Washington. Nem é necessário dizer que a promessa de uma Otan mais política foi esquecida. Clinton expandiu a organização para o Leste, e Bush foi mais além. Aparentemente Barack Obama tenta continuar a expansão.
Um dia antes da primeira viagem de Barack Obama à Rússia, seu assistente especial em Segurança Nacional e Assuntos Euroasiáticos informou pela imprensa: não vamos dar segurança aos russos, nem dar ou trocar nada com eles sobre a expansão da Otan ou a defesa com mísseis. Referia-se aos programas de defesa com mísseis americanos na Europa oriental e à possibilidade de converter em membros da Otan os vizinhos da Rússia, Ucrânia e Geórgia. Ambos os passos eram vistos pelos analistas ocidentais como sérias ameaças à segurança russa, pelos quais, de igual modo, poderiam inflamar as tensões internacionais.
Agora, a jurisdição da Otan é ainda mais ampla. O assessor de Segurança Nacional de Obama, o comandante da Marinha James Jones, pede que a organização se amplie ao Sul e também a Leste, de modo que se reforce o controle americano sobre as reservas energéticas do Oriente Médio. O general Jones também advoga uma força de resposta da Otan, que confie à aliança militar encabeçada pelos Estados Unidos muito maior capacidade e flexibilidade para efetuar ações com rapidez e em longas distâncias, objetivo que agora Washington se empenha em conseguir no Afeganistão
Agora, a jurisdição da Otan é ainda mais ampla. O assessor de Segurança Nacional de Obama, o comandante da Marinha James Jones, pede que a organização se amplie ao Sul e também a Leste, de modo que se reforce o controle americano sobre as reservas energéticas do Oriente Médio. O general Jones também advoga uma força de resposta da Otan, que confie à aliança militar encabeçada pelos Estados Unidos muito maior capacidade e flexibilidade para efetuar ações com rapidez e em longas distâncias, objetivo que agora Washington se empenha em conseguir no Afeganistão
O secretário-geral da Otan, Jaap de Hoop Scheffer, informou à conferência da organização que as tropas da aliança têm que custodiar os dutos de óleo e gás que vão diretamente ao Ocidente e, de modo mais geral, proteger as rotas marinhas utilizadas pelos navios-cisterna e outras infraestruturas cruciais do sistema energético. Essa decisão expressa de forma mais explícita as políticas posteriores à Guerra Fria: remodelar a Otan para recuperá-la como força de intervenção global encabeçada pelos Estados Unidos, cuja preocupação especial seja o controle das fontes de energia.
Supostamente, a tarefa inclui a proteção de um duto de 7,6 bilhões de dólares que conduzirá gás natural do Turcomenistão ao Paquistão e à Índia, passando pela cidade de Kandahar, no Afeganistão, onde estão as tropas canadenses. A meta é bloquear a possibilidade de que um duto leve a Paquistão e Índia gás procedente do Irã, e diminuir a dominação das exportações energéticas da Ásia central, segundo informou a imprensa canadense, rascunhando com realismo alguns dos contornos do novo grande jogo no qual a força de intervenção internacional encabeçada pelos Estados Unidos vai ser a principal jogadora.
Desde os primeiros dias posteriores à Guerra Fria, pensava-se que a Europa ocidental poderia optar por um caminho independente, talvez com uma visão gaullista da Europa, do Atlântico aos Urais. Neste caso, o problema não seria um vírus capaz de disseminar contágio, mas uma pandemia que poderia destruir todo o sistema de controle global. Supõe-se que, ao menos em parte, a Otan tenta barrar esta séria ameaça. A atual expansão da aliança e os ambiciosos objetivos da nova organização dão novo impulso.
Os acontecimentos continuam atravessando o momento unipolar, aderindo aos princípios que regem os assuntos internacionais. Mais especificamente, as políticas moldam-se muito próximas das doutrinas da ordem mundial formuladas pelos estrategistas americanos de alto escalão durante a Segunda Guerra Mundial. A partir de 1939 reconheceram que, fosse qual fosse o resultado da guerra, os Estados Unidos se converteriam em potência global, substituindo a Grã-Bretanha.
Em concordância, desenvolveram-se planos para que os Estados Unidos exercessem controle sobre uma porção substancial do planeta. Esta grande área, como a chamam, deveria compreender pelo menos o hemisfério ocidental, o antigo império britânico, o Extremo Oriente e os recursos energéticos da Ásia ocidental. Nesta grande área, os Estados Unidos deveriam manter um poder inquestionável, a supremacia militar e econômica, e atuariam para garantir limites a qualquer exercício de soberania por parte de Estados que pudesse interferir no seu propósito.
Em princípio, os responsáveis pelo plano pensaram que a Alemanha predominaria na Europa, mas, conforme a Rússia começou a destruir a Wehrmacht (as forças armadas nazistas), a visão se alargou mais e mais, e se procurou incorporar à grande área a maior extensão da Eurásia que fosse possível, pelo menos a Europa Ocidental, o coração econômico da Eurásia.
Desenvolveram-se planos detalhados e racionais para a organização global, e a cada região se designou uma função. Ao Sul em geral foi designado uma função de serviço: proporcionar recursos, mão-de-obra barata, mercados, oportunidades de investimento e mais tarde outros serviços, como receber a exportação de lixo e poluição. Nessa época, os Estados Unidos não estavam tão interessados na África, então a passaram à Europa a fim de garantir sua reconstrução depois da destruição da guerra. Seria possível imaginar relações diferentes entre África e Europa à luz da história, mas não levaram isso em conta.
Em contraste, reconheceram que as reservas de petróleo do Oriente Médio eram uma estupenda fonte de poder estratégico e um dos maiores prêmios materiais na história do mundo: a mais importante das áreas estratégicas do mundo, usando as palavras de Eisenhower. E os estrategistas se davam conta de que o controle do óleo do Oriente Médio proporcionaria aos Estados Unidos o controle substancial do mundo.
Os que consideram significativa a continuidade da história talvez se recordem de que os estrategistas de Truman faziam eco às doutrinas dos democratas jacksonianos no momento da anexação do Texas e da conquista de parte do México, um século antes. Tais predecessores previram que as conquistas proporcionariam aos Estados Unidos um virtual monopólio do algodão, o combustível da primeira revolução industrial: esse monopólio, agora assegurado, põe todas as nações aos nossos pés, declarou o presidente Tyler. Dessa forma, os Estados Unidos poderiam fugir do disuasivo britânico, o maior problema dessa época, e ganhar influência internacional sem precedente.
Concepções semelhantes guiaram Washington em sua política petrolífera. De acordo com ela – explicava o Conselho de Segurança Nacional de Eisenhower –, os Estados Unidos devem respaldar regimes rudes e brutais e bloquear a democracia e o desenvolvimento, ainda que isso provoque uma campanha de ódio contra nós, como observou o presidente Eisenhower 50 anos antes de George W. Bush perguntar em tom de lamentação por que nos odeiam e concluir que deveria ser porque odiavam nossa liberdade.
Em relação à América Latina, os estrategistas da Segunda Guerra Mundial concluíram que os interesses americanos são ameaçados pelos regimes radicais e nacionalistas que apontam para a massa da população e buscam satisfazer a demanda popular de melhoria imediata dos baixos padrões de vida e o desenvolvimento a favor das necessidades internas do país. Estas tendências entram em conflito com a demanda de um clima econômico e político que propicia a invasão privada, com a adequada repatriação dos lucros e a proteção de nossas matérias-primas. Grande parte da história a seguir traz essas concepções que ninguém questiona.
TLC, cura recomendada
No caso especial do México, a oficina de desenvolvimento de estratégias para a América Latina, realizada no Pentágono em 1990, considerou as relações Estados Unidos-México extraordinariamente positivas, que não perturbam nem roubam as eleições, nem acabam com a violência do Estado, nem a tortura ou o tratamento escandaloso dado aos trabalhadores e camponeses, e outros pequenos detalhes. Os participantes da oficina viram uma nuvem no horizonte: a ameaça de “uma abertura da democracia no México”, a qual temiam, pois poderia pôr no cargo um governo mais interessado em desafiar as bases econômicas e nacionalistas dos Estados Unidos.
A saída recomendada foi um tratado Estados Unidos-México que colocava o vizinho em seu interior e propunha as reformas neoliberais da década de 1980, que atavam as mãos dos atuais e futuros governos do México em matéria de política econômica.
Em resumo, o TLC foi imposto pontualmente pelo Poder Executivo em oposição à vontade popular. No momento em que o TLC entrava em vigor, em 1994, o presidente Clinton instituía também a Operação Guardião, que militarizou a fronteira mexicana.
Ele explicou assim: não entregaremos nossas fronteiras àqueles que querem explorar a nossa história de compaixão e de justiça. Na menção feita à compaixão e à justiça que inspiraram a imposição de tais fronteiras não explicou como o sumo sacerdote da globalização neoliberal entendia a observação de Adam Smith de que a livre circulação da mão-de-obra é a pedra fundamental do livre comércio.
A escolha do tempo para implantar a Operação Guardião não foi acidental. Os analistas racionais anteciparam que abrir o México a uma avalanche de exportações agroindustriais altamente subsidiadas eventualmente comprometeria a agricultura mexicana, e que as empresas mexicanas não aguentariam a concorrência das grandes corporações que, conforme o tratado, poderiam operar livremente no México. Um resultado provável seria a fuga de muitas pessoas para os Estados Unidos junto com quem fugisse dos países da América Central, arrasados pelo terrorismo reaganita. A militarização da fronteira foi um remédio natural.
As atitudes populares com os que fogem de seus países – conhecidos como estrangeiros ilegais – são complexas. Eles servem de mão-de-obra valiosa e superbarata. Nos Estados Unidos, as agroempresas, a construção e outras indústrias dependem substancialmente deles, que contribuem para enriquecer as comunidades onde residem. Por outro lado, despertam tradicionais sentimentos anti-imigrantes, estranha característica nesta sociedade de imigrantes, arrastando uma história vergonhosa de tratamento contra eles. Faz poucas semanas, os irmãos Kennedy foram felicitados como heróis americanos. Mas, no fim do século 19, os cartazes dizendo “Nem cães nem irlandeses” estavam à porta dos restaurantes de Boston. Hoje os empreendedores asiáticos inovam no setor da alta tecnologia. Há um século, ações racistas de exclusão impediam o acesso de asiáticos, porque eram considerados ameaças à pureza da sociedade americana.
As atitudes populares com os que fogem de seus países – conhecidos como estrangeiros ilegais – são complexas. Eles servem de mão-de-obra valiosa e superbarata. Nos Estados Unidos, as agroempresas, a construção e outras indústrias dependem substancialmente deles, que contribuem para enriquecer as comunidades onde residem. Por outro lado, despertam tradicionais sentimentos anti-imigrantes, estranha característica nesta sociedade de imigrantes, arrastando uma história vergonhosa de tratamento contra eles. Faz poucas semanas, os irmãos Kennedy foram felicitados como heróis americanos. Mas, no fim do século 19, os cartazes dizendo “Nem cães nem irlandeses” estavam à porta dos restaurantes de Boston. Hoje os empreendedores asiáticos inovam no setor da alta tecnologia. Há um século, ações racistas de exclusão impediam o acesso de asiáticos, porque eram considerados ameaças à pureza da sociedade americana.
Sejam quais forem a história e as realidades econômicas, os imigrantes têm sido vistos como trabalhadores que ameaçam seus empregos, seus modos de vida e sua subsistência. É importante levar em conta que aqueles que protestam com fúria têm queixas reais. São vítimas de programas de gestão financeira e da economia de globalização neoliberal, desenhados para transformá-los em trabalhadores fortes e poderosos para competir uns com os outros na escala mundial, baixando salários, enquanto se protegem das forças de mercado e dos profissionais com estudos.
Os efeitos foram severos a partir dos anos de Reagan, e se manifestam de modo feio e extremo, como mostram as primeiras páginas dos jornais atuais. Os dois partidos políticos competem para ver qual proclama com maior ardor sua dedicação à sádica doutrina de que se deve negar a atenção à saúde aos estrangeiros ilegais. Sua postura é consistente com o princípio estabelecido pela Suprema Corte, de que, de acordo com a lei, essas criaturas não são pessoas, e portanto não são sujeitos de direitos concedidos a pessoas.
Neste exato momento a Suprema Corte analisa se as corporações devem poder comprar eleições abertamente em vez de fazê-lo de modos mais indiretos: assunto constitucional complexo, porque as cortes determinaram que, ao contrário dos imigrantes sem documentos, as corporações são pessoas reais, de acordo com a lei, e assim, de fato, têm direitos maiores que os das pessoas de carne e osso, incluídos os direitos consagrados pelos malfadados acordos de livre comércio. Estas reveladoras coincidências não me provocam comentário algum. A lei é em verdade um assunto solene e majestoso.
O espectro da planificação é estreito, mas permite alguma variação. O governo de Bush II foi tão longe que chegou ao extremo do militarismo agressivo, exercendo arrogante desprezo inclusive por seus aliados. Foi condenado duramente por estas práticas, mesmo nas correntes principais de opinião. O segundo período de Bush foi mais moderado. Algumas de suas figuras mais extremistas foram expulsas: Rumsfeld, Wolfowitz, Douglas Feith e outros. Não puderam tirar Cheney porque ele era o governo.
As políticas começaram a retornar mais ao normal. Ao chegar Obama ao cargo, Condoleeza Rice predizia que seguiria as políticas do segundo período de Bush, e isso em grande medida foi o que ocorreu, a despeito do estilo retórico diferente, que parece ter encantado boa parte do mundo… talvez pelo alívio que significa a saída de Bush.
No ponto mais quente da crise dos mísseis cubanos, um assessor de alto nível do governo Kennedy expressou muito bem algo que, atualmente, é uma diferença básica entre George Bush e Barack Obama. Os estrategistas de Kennedy tomavam decisões que literalmente ameaçavam a Grã-Bretanha com a aniquilação, mas sem informar aos britânicos.
Nesse ponto, o consultor definiu a relação especial com o Reino Unido. “A Grã-Bretanha é o nosso tenente”, disse; o termo mais atual seria um “parceiro”. A Grã-Bretanha, é claro, prefere o termo moderno. Bush e seus companheiros se dirigiam ao mundo tratando a todos como nossos tenentes. Assim, ao anunciar a invasão do Iraque, a ONU foi informada de que poderia obedecer às ordens americanas ou tornar-se irrelevante. É natural que essa arrogância descarada levante hostilidades.
Já Obama atua de forma diferente. Com afeição, cumprimenta líderes e pessoas do mundo como sócios e só os trata como tenentes, ou subordinados, em particular. Os líderes estrangeiros gostam mais dessa postura e o público, por sua vez, se hipnotiza com ela. Mas é mais inteligente se atender aos fatos e não à retórica ou a comportamentos agradáveis. Porque é comum que os fatos contem uma história diferente. E nesse caso também.
Tecnologia da destruição
O atual sistema mundial permanece unipolar apenas no âmbito da força. Os gastos dos Estados Unidos com força militar somam quase a mesma quantia de todos os países juntos. Assim, os americanos estão muito mais avançados em termos de tecnologia da destruição. São também os únicos a terem centenas de bases militares espalhadas pelo mundo inteiro e a ocupar países situados em áreas cruciais de produção de energia.
Além disso, vêm sendo criadas megaembaixadas nessas regiões; cada uma, na verdade, é uma cidade dentro de outra: uma clara sugestão das futuras intenções. Em Bagdá, calcula-se que os custos da megaembaixada devem crescer de 1,5 bilhão de dólares – valor deste ano – para 1,8 bilhão nos próximos anos. Não se sabe os custos de seus equivalentes no Paquistão e no Afeganistão, nem o destino das enormes bases militares que os americanos instalaram no Iraque.
Agora, essa cadeia global de bases se expande para a América Latina. Os EUA haviam sido expulsos de suas bases na América do Sul; o último caso foi em Manta, no Equador. No entanto, recentemente, o país fez acordos para utilizar sete novas bases militares na Colômbia. Supõe-se que haja a intenção de manter a base de Palmerola, em Honduras, que desempenhou um importante papel nas guerras terroristas de Reagan. A Quarta Frota americana, debandada nos anos 50 do século 20, foi reativada em 2008, pouco depois da invasão colombiana ao Equador.
A responsabilidade da base abrange o Caribe, a América Central e a América do Sul e os mares ao seu redor. A Marinha incluiu, entre suas diversas operações, ações contra o tráfico ilícito, manobras simuladas de cooperação em segurança, interações exército-exército e treinamento bilateral e multilateral. É compreensível que a reativação da frota provoque protestos e preocupe governos como o do Brasil, da Venezuela e de outros países.
A preocupação dos sul-americanos aumentou por conta de um documento de abril de 2009, divulgado pelo Comando de Mobilidade Aérea Americana (US Air Mobility Command), que sugere que a base de Palanquero, na Colômbia, pode se transformar em espaço de segurança cooperativa desde que seja possível executar operações de mobilidade. O informe assinala que, de Palanquero, um C-17 (transporte militar aéreo) sobrevoa quase metade de um continente sem precisar de combustível. Isso poderia fazer parte de uma estratégia global em curso, que ajude a alcançar uma estratégia regional de combate, e com a mobilidade dos trajetos, até a África. Por enquanto, a estratégia de situar a base em Palanquero deve ser suficiente para determinar a extensão da mobilidade aérea no continente sul-americano, concluiu o documento, que segue ainda explorando opções para estender o sistema à África com bases adicionais, tudo como parte de um sistema global de vigilância, controle e intervenção.
Esses planos fazem parte de uma política mais generalizada de militarização da América Latina. O treinamento de oficiais latino-americanos aumentou abruptamente nos últimos 10 anos, sendo ainda maior do que nos tempos da Guerra Fria. Os policiais são treinados em táticas de infantaria leve. Sua missão é combater gangues de jovens e populismo radical – o último termo deve ser muito bem compreendido na América Latina.
O pretexto é a guerra contra as drogas, mas é difícil levá-lo a sério, mesmo se aceitarmos a extraordinária suposição de que os EUA têm o direito de liderar uma guerra em terras estrangeiras. As razões são bem conhecidas e foram expressas novamente no fim de fevereiro pela Comissão Latino-Americana sobre Drogas e Democracia, encabeçada pelos ex-presidentes [Fernando Henrique] Cardoso, Zedillo e Gaviria. Seu relatório concluiu que a guerra ao narcotráfico foi um fracasso total, havendo necessidade de uma mudança urgente de política, que se afaste de medidas de força nos âmbitos interno e externo e procure medidas menos custosas e mais efetivas.
Os estudos realizados pelo governo americano – e outras investigações – mostraram que a forma mais efetiva e menos custosa de controlar o uso de drogas é a prevenção, o tratamento e a educação. Além disso, os métodos mais custosos e menos eficazes são as operações fora do próprio país, como as fumigações [de lavouras ilegais] e a perseguição violenta.
Privilegiar constantemente os métodos menos eficazes e mais custosos sobre os melhores é suficiente para mostrar-nos que os objetivos da guerra às drogas não são os que se divulgam. Para determinar os verdadeiros objetivos, pode-se adotar o princípio legal de que as consequências previsíveis são uma prova das intenções. E as consequências não são obscuras: contrainsurgência no exterior e uma forma de limpeza social interna, enviando elevado número de pessoas supérfluas, quase todas elas homens negros, às penitenciárias, fenômeno que levou à taxa de encarceramento mais alta do mundo desde que se iniciaram os programas, há 30 anos.
Ainda que o mundo seja unipolar na dimensão militar, nem sempre foi assim no campo econômico. No início da década de 1970, o mundo se tornou economicamente tripolar, com centros similares na América do Norte, na Europa e no nordeste asiático. Agora, a economia global se tornou ainda mais diversa, principalmente depois do rápido crescimento das economias asiáticas, que desafiaram as regras do neoliberal Consenso de Washington.
A América Latina começa também a se libertar dessa sujeição. As tentativas americanas de militarizá-la são uma resposta a esses processos, particularmente na América do Sul que, pela primeira vez desde as conquistas europeias, começa a enfrentar os problemas fundamentais que têm assolado o continente. Há, aqui, o início dos movimentos que visam a integração de países que tradicionalmente se orientam para o Ocidente, não um ao outro, e também um impulso por diversificar as relações econômicas e outras relações internacionais.
Por último, alguns esforços sérios dão resposta à patologia latino-americana — de que são os setores abastados que governam em meio a um mar de miséria, ficando os ricos livres de responsabilidades, exceto a de enriquecer. Isso é muito diferente da Ásia oriental, como se pode medir observando a fuga de capitais. Na Ásia oriental, tais fugas foram controladas com muita força. Na Coreia do Sul, por exemplo, durante seu período de rápido crescimento, a exportação de capitais podia acarretar a pena de morte.
Estes processos na América Latina, encabeçados por impressionantes movimentos populares de massas, são de grande significação. Não surpreende que provoquem amargas reações entre as elites tradicionais, respaldadas pela superpotência hemisférica. As barreiras são formidáveis, mas os resultados mudarão de forma significativa o curso da história latino-americana e seus impactos mais além não serão pequenos.
* Pensador, escritor e ativista americano, professor de Linguística do MIT (Instituto Tecnológico de Massachussetts), fundador da Gramática Generativa Transformacional, sistema que revolucionou a linguística; autor de A segunda guerra fria (1984), A quinta liberdade (1988), O medo da democracia (1992), A nova ordem mundial (e a velha) (1996). Fonte: Red Voltaire (rede da imprensa não-alinhada dedicada ao debate das relações internacionais), que reproduziu o texto publicado no jornal mexicano La Jornada de 22 de setembro de 2009; tradução do espanhol: Redação do RADIS