sexta-feira, 27 de maio de 2011

Saúde do povo, descaso do Estado

Correio Braziliense.

Sexta-feira, 27 de maio de 2011



FREI BETTO
Escritor, é autor de Calendário do Poder (Rocco), entre outros livros
O neoliberalismo deu um tiro de misericórdia no Estado de bem-estar social. Destruiu os vínculos societários nas relações de trabalho, deslegitimou a representação sindical, deslocou o público para o privado. O que era direito do cidadão, como a saúde, passou a depender das relações de mercado e da iniciativa pessoal do consumidor.
Quem não tem plano privado de saúde entra na planilha dos cemitérios. Hoje, 40 milhões de brasileiros desembolsam, todo mês, considerável quantia, convictos de que, doentes, serão atendidos com a mesma presteza e gentileza com que foram assediados pelos corretores das empresas de saúde privada.
Os clientes se multiplicam e os planos proliferam, sem que a rede hospitalar acompanhe essa progressão. O associado só descobre o caminho do purgatório na hora em que necessita de resposta do plano: laboratórios e hospitais repletos, filas demoradas, médicos escassos, atendentes extenuados.
Em geral, o pessoal de serviço, que faz contato imediato com os beneficiários, não demonstra a menor disposição para o melhor analgésico à primeira dor: gentileza, atenção, informação sem dissimulação ou meias palavras.
Ora, se faltam postos de saúde e hospitais; se consultórios têm salas de espera repletas como estação rodoviária em véspera de feriado; se na hora da precisão se descobre que o plano é bem mais curvo e acidentado do que se supunha... a quem recorrer? Entregar-se às mãos de Deus?
O Brasil é o país dos paradoxos. O que o governo faz com uma mão, desfaz com a outra. O SUS banca 11 milhões de internações por ano. Muitas poderiam ser evitadas se o governo tivesse uma política de prevenção eficiente e, por exemplo, regulamentasse, como já faz com bebidas alcoólicas e cigarro, a publicidade de alimentos nocivos à saúde. A obesidade compromete a saúde de 48% da população.
Entre nossas crianças, 45% estão com sobrepeso, quando o índice de normalidade é não ultrapassar 2,3%. De cada cinco crianças obesas, quatro continuarão assim quando adultos. No entanto, as leis asseguram imunidade e impunidade a uma infinidade de guloseimas e bebidas, muitas anunciadas ao público infantil na tevê e em outros veículos. Haja excesso de açúcares e gordura saturada!
A boa-fé nutricional insiste na importância de verduras e legumes. Mas a Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) não se empenha para livrar o Brasil do vergonhoso título de campeão mundial no uso de agrotóxicos. Substâncias químicas proibidas em outros países são encontradas em produtos vendidos no Brasil. Haja câncer, má-formação fetal, hidroencefalia etc!
Entre 2002 e 2008, os acidentes de moto se multiplicaram 7,5 vezes no Brasil. Na capital paulista, são quatro mortes por dia. Muitos motoqueiros sobrevivem com graves lesões. No entanto, a fiscalização de veículos e condutores é precária e as vias públicas não são adaptadas ao tráfego de veículos de duas rodas.
Quem chega ao Brasil do exterior deve preencher e assinar um documento da Receita Federal declarando se traz ou não medicamentos. Em caso positivo, o produto e o passageiro são encaminhados à Anvisa. Ora, toneladas de veneno entram diariamente por nossos portos e aeroportos, e são vendidos em qualquer esquina: anabolizantes, energizantes, enquanto a tevê veicula publicidade de refrigerantes com alto teor de cafeína e poder de corrosão óssea.
Embora todos saibam que saúde, alimentação e educação são prioritárias, o Ministério da Saúde dispõe de poucos recursos, apenas 3,6% do PIB, o que equivale, neste ano de 2011, a R$ 77 bilhões. Detalhe: em 1995 o governo FHC destinou à saúde R$ 91,6 bilhões. A Argentina, cuja população é cinco vezes inferior à do Brasil, destina anualmente duas vezes mais recursos que o nosso país.
Nossa saúde é prejudicada também pelo excesso de burocracia das agências reguladoras, a corrupção que grassa nos tentáculos do Poder Público (vide o prontuário da Funasa na sua relação com a saúde indígena), a falta de coordenação entre a União, os estados e os municípios. Acrescem-se a mercantilização da medicina, a carência de médicos e sua má distribuição pelo país (o Rio tem quatro médicos por cada mil habitantes: o Maranhão, 0,6).
Governo é que nem feijão, só funciona na panela de pressão. Se a sociedade civil não exigir melhorias na saúde, no atendimento do SUS, no controle dos planos privados e dos medicamentos (pelos quais se pagam preços abusivos), estaremos fadados a ser uma nação, não de cidadãos, e sim de pacientes - no duplo sentido do termo. E condenados à morte precoce por descaso do Estado.


sábado, 7 de maio de 2011

Parecer sobre o Protocolo de Manchester - Comissão de Assuntos Internos


Prezadas(os) Enfermeiras(os)...no próximo dia 16 de maio no Plenarinho da Câmara de Vereadores de Joinville, a Comissão de Assuntos Internos do Conselho Municipal de Saúde de Joinville, apresentará seu parecer sobre a realização do Protocolo de Manchester pela(o) enfermeira(o)...venha participar.....sua presença é MUITO IMPORTANTE !!!!!

segunda-feira, 2 de maio de 2011

O SUS tira leite de pedra

 

 
por Emerson Elias Merhy, professor visitante da UFRJ e professor aposentado da UNICAMP

Campinas, 29 de abril de 2011

Quando o Clinton foi candidato à presidência dos Estados Unidos da América (EUA) tive a noção de um movimento de profissionais de saúde, naquele país, que defendia uma reforma do seu sistema de saúde – sabidamente ineficiente por ter um gasto enorme de recursos na produção de resultados bem aquém de outros, que com muito menos conseguem resultados muito mais efetivos – tendo como parâmetro o modelo construído no Canadá.
Dentre muitas coisas, diziam que com metade do gasto por habitante conseguia-se impactos muito mais substanciais em termos da saúde individual e coletiva dos canadenses, além de uma cobertura universal, na qual todos tinham direito ao cuidado com qualidade, adequado ao seu tipo de necessidade.
Contrapunham também à imagem de que nos EUA não só havia um contingente enorme de americanos excluídos do cuidado, bem como a qualidade da assistência prestada era precaríssima no campo da saúde pública, com falta de cobertura básica para certos grupos populacionais no cuidado de certas endemias.
Aprendi em detalhe essa perversidade do modelo americano de (des) cuidar em saúde com os trabalhos interessantes de Howard Waitzkin, médico americano que tem uma produção muito minuciosa sobre situações de desigualdade no campo da saúde, indicando em seus materiais da época a exclusão de uma população de 50 milhões de americanos de qualquer cuidado minimamente decente.
Em um estudo que pudemos construir junto com outros parceiros da América Latina – da Argentina, Chile, Equador – vimos como o Brasil vivia uma situação muito peculiar: a de remar contra a maré, como diziam os companheiros da Prefeitura de Santos nos anos de Davi Capistrano naquela cidade (1990 – 1998). Isto é, brincávamos com Howard que se em vez de adotarem o modelo canadense adotassem o nosso, do SUS, tirariam leite de pedra: seriam o sistema mais eficiente do mundo à exceção do modelo cubano, que ao não ser monetarizado não permite comparações muito equivalentes para um estudo de eficiência, apesar de sabidamente impactante e muito efetivo. Não é a toa que Cuba usufrui de indicadores de saúde bem destacados em relação a vários outros países e incomparáveis àqueles que são tão pobres quanto ele.
Brincávamos muito com aquele fato, que inclusive depois mereceria uma fala do Lula, já como presidente, para o Obama, há pouco tempo, dizendo a mesma coisa. Fato que vem sendo tão reconhecido que até um número especial do Lancet, um dos ícones da produção científica na saúde mundial, será dedicado à reforma sanitária brasileira e que independente de quem irá escrever este material para essa revista, algo de muito significativo nas nossas conquistas deverá ser evidenciado.
Pois, de fato tiramos leite de pedra. E muitos leites, de muitas pedras.
Nesse momento do texto, que terá outras partes, destaco exatamente essa imagem que estou construindo: apesar de todas as dificuldades e de muitos problemas, o SUS produz uma quantidade enorme de intervenções em saúde, com impactos significativos, com gasto muitas vezes irrisórios, comparado com outros lugares do mundo.
Não que isso não venha sendo feito com grandes distorções e mesmo que não tenha batido em um certo teto. Estão aí as precarizações do trabalho, estão aí a enormidade de gastos inúteis com procedimentos diagnósticos, estão aí incontroláveis endemias, estão aí corrupções e desmandos, estão aí as privatizações duvidosas e por aí vai. Mas, indiscutivelmente, estão aí a melhora de muitos indicadores de saúde como queda da mortalidade materna, da mortalidade infantil, aumento do diagnóstico precoce de vários cânceres, aumento da cobertura vacinal, aumento do acesso aos cuidados e os inovadores cuidados no campo das doenças transmissíveis e da saúde mental, de alta relevância e referência internacional.
Há margem para tudo no SUS. Criticas pertinentes e reconhecimentos de conquistas fundamentais em um país tão desigual como o brasileiro, que faz um esforço gigantesco em construir um campo de direito, o da saúde, desde à luta contra a ditadura, onde a vida sempre foi avaliada de modo muito discriminatória desde a longa tradição escravocrata, na qual há vidas para serem vividas e há vidas nuas, não merecedoras de nada a não ser sua exploração em benefício de um outro.
O SUS tira leite de pedra desse país. E só consegue tirar esse leite porque conseguiu ser produto de um movimento social, plural e democrático na sua origem, que soube produzir novos recursos para suas pretensões, além de redirecionar alguns dos “fundos públicos” já existentes, que eram usados para outras finalidade.
Faço-me entender melhor sobre isso, pois é um ponto fundamental para tirar leite de pedra, mesmo considerando que iremos voltar a outras dimensões dessa questão. Pois, aqui estou interessado em destacar uma ação fundamental que muda o processo histórico e social brasileiro em relação ao campo da saúde a partir do movimento sanitário brasileiro: a criação e o manejo de “fundos públicos” para novos interesses.
Apesar de tratar de um modo muito genérico, diria que a produção da riqueza econômica no Brasil, durante o século XX, reconhecidamente uma das mais significativas no plano mundial, esteve de mão dada com a capacidade de se produzir socialmente o que chamo de poupança pública, ou seja, a criação de uma reserva de capital, fundos públicos, que na disputa social entre vários atores altamente interessados neles, vai se desenhando a construção de setores de ações sociais fundamentais para o desenho do campo das políticas sociais, de várias ordens, do estado brasileiro. (diria que minha inspiração, com muita adaptação, vem de estudos como de Francisco de Oliveira sobre o desenvolvimento brasileiro, muitos dos quais publicados pelo Cebrap em certa época)
Um exemplo clássico seria o esforço enorme no começo da República Velha, nos anos 1890, de criar recursos públicos, com taxações de diferentes ordens, para abrir novos campos de ações do estado, criando outros eixos de produção de riqueza. Por exemplo, andam de mão dadas tanto os fundos públicos criados para bancar a produção, distribuição e exportação do café; quanto os fundos para criar um setor de saúde pública que não existia antes, mas chave para essa mesma produção de riqueza. Já em estudo anterior produzi muita informação sobre isso no meu livro O capitalismo e a saúde pública, publicado em 1987. (muito do meu material pode ser acessado no www.uff.br/saudecoletiva/professores/merhy)
Essa capacidade de produção de novas questões sociais e de construir recursos públicos para o seu enfrentamento é nuclear no movimento da sociedade brasileira, na qual a poupança privada sempre foi muito restritiva.
Pois bem, o enorme movimento social na luta pela ditadura e em particular uma de suas expressões, o movimento sanitário brasileiro, soube agir nesse terreno. O SUS é bem exemplar sobre isso, mas a duras penas nos dias de hoje.
Com toda sua institucionalização, criando um forte movimento em direção ao processo de municipalização do sistema de saúde nacional, abriu um novo território de poupança pública: os recursos dos municípios. O que permitiu avançar a construção do SUS mesmo tendo havido, e há até hoje, momentos fortes de diminuições dos gastos em saúde das outras esferas de governo, as estaduais e a federal.
Não é pouco o que os municípios colocaram e colocam de recursos públicos no campo da construção do SUS e graças a eles, disputadíssimos pelos vários atores sociais interessados no seu uso, o SUS se consolida como uma nova forma de se fazer política de saúde no Brasil, com arenas institucionais mais ampliadas, com o envolvimento mais plural de vários grupos sociais.
Nessa direção, temos que entender que o verdadeiro ordenhador dessa produção de novos recursos não foram os governos formais, mas sim uma quantidade enorme de militantes e atores sociais que batalharam e batalham pela mudança substantiva dos rumos das políticas sociais no país, apontando para novos focos de interesses, muito mais amplos e democráticos, no que toca seus sentidos. Além de uma luta encarniçada pela produção de novos espaços de formulação e gestão dessa política.
A bandeira da construção cidadã na saúde, a produção desses novos fundos públicos e a forte e organizada ação militante de milhares de brasileiros, de todos os agrupamentos sociais, nas novas arenas institucionais criadas tiraram leite de pedra. Mas, que do meu ponto de vista, vive hoje um limite nítido, de várias ordens e que procurarei tratar em textos a seguir. Muito para além dos limites exclusivamente financeiros.
Quero dizer com isso que apesar de ser fundamental a Emenda 29, ela passa a ser um detalhe, nesse momento.
Por exemplo, porque a proposta que o governo atual tem feito de que o SUS tem que se mostrar mais eficiente é uma falácia, pois o SUS só é isso. A demonstração da eficiência; quem tem que mostrar que é o setor privado, como já disseram muitos companheiros anteriores a mim.
Porque a questão do financiamento do SUS não é uma questão econômica mas política e vital, hoje.
Porque a regulação efetiva do mercado em saúde é fundamental para a construção do SUS e esse caminho de dois sistemas só leva a perda das conquistas do SUS e seu sucateamento, tornando-o lugar de práticas pobres para atender pobres.
Porque regular o mercado da força de trabalho em saúde, em particular as dos médicos é hoje central para o avanço do sistema.
Porque as esferas federativas não são parceiras como deveria ser em um campo de política de estado, mas ao contrário são atores sociais que disputam dos mais variados modos projetos de seus exclusivos interesses.
Porque novas formas institucionais de construir a coisa pública sem privatização é fundamental nesse momento.
Porque faltam leis centrais e regulações fundamentais a serem pactuadas entre todos interessados no SUS, como a Lei da Responsabilidade Sanitária e a da Carreira SUS, que se não forem construídas o leite vai secar, com certeza.
Até o próximo texto.

sexta-feira, 15 de abril de 2011

Entrevista Vereadora Tânia Eberhardt

Ouça a entrevista da Vereadora Tânia Eberhardt, acesse:

http://www.4shared.com/audio/XgtFBgOE/Vereadora_Tnia.html

segunda-feira, 11 de abril de 2011

terça-feira, 5 de abril de 2011

Tuberculose - Notícias

O médico Afrânio Lineu Kritski, professor da UFRJ, membro da Rede TB e do Comitê Científico da Tuberculose é uma das maiores autoridades do assunto. Esteve em Curitiba para participar do Dia Mundial de Luta e Combate à Tuberculose a convite da Secretaria de Estado da Saúde. Em sua palestra, Kritski falou sobre a história, avanços e desafios da tuberculose

O senhor veio a este evento da Secretaria de Saúde do Paraná para falar sobre história, avanços e desafios da Tuberculose. Qual foi a ênfase de sua palestra?

O que eu enfatizei na palestra foi que hoje o grande desafio, para o Brasil e para o mundo como um todo, é nos convencermos a nós mesmos, a sociedade civil, os gestores, os profissionais de saúde e os pesquisadores de que a Tuberculose ainda existe e ela é um grande problema para um país como o Brasil. Então a primeira questão mais importante é a informação, a divulgação de que ela é um problema que existe. Porque há uma informação não dita que a Tuberculose é do passado, que é um problema antigo e é uma informação equivocada. Nós só podemos enfrentar a Tuberculose se estivermos todos convencidos que ela é um problema. Para isso, nós temos que ter o envolvimento de todos os atores e protagonistas e, essencialmente, o compromisso político, que, felizmente pelo que vi aqui, o secretário de estado da saúde informou e reafirmou o seu compromisso com as ações coordenadas e integradas em rede no combate a Tuberculose.

Então acho que a primeira questão é a divulgação e informação para a comunidade, porque assim, informando as pessoas, vão começar a pensar em Tuberculose. E ao começar a pensar em Tuberculose facilita o diagnóstico. Existe um levantamento recente em São Paulo, que quase 60% dos médicos do estado de São Paulo desconhece a Tuberculose, isso é recente. Não é culpa deles; é porque na década de 70 achou-se que a tuberculose seria erradicada rapidamente com os medicamentos novos. O ser humano achou que tinha vencido a natureza e nós não vencemos a natureza nunca. Nós temos que trabalhar com ela.

Qual foi a grande falha com relação à Tuberculose?

A Tuberculose é um bom modelo para mostrar como nós não devemos atuar. Não devemos atuar de modo fragmentado, nós temos que atuar sempre de modo integrado, em rede, sempre em associações de estratégias de atividades. Na década de 70, o mundo todo achou que a tuberculose não era mais problema, aí as ONG?s fecharam, a academia se afastou ? a tuberculose não era mais problema a ser pesquisado. Então os currículos das escolas médicas de enfermagem deixaram de falar de tuberculose, e o resultado disso qual foi? A tuberculose voltou. Década de 80 e 90 voltou porque o mundo empobreceu.

Na década de 80, com o neoliberalismo mundial liderado pelos EUA, com Reagan e pela Inglaterra, com Margaret Thatcher, o mundo empobreceu muito, e com o empobrecimento houve um êxodo rural maior, uma aglomeração muito grande. As grandes cidades cresceram muito, muita favela, e aí pessoas morando em más condições de moradia. Cinco ou seis pessoas no mesmo quarto, se uma delas com tuberculose, contamina todo mundo. Principalmente as crianças, os idosos, as pessoas com imunosupressão, fragilidades. E somado à questão social, como a tuberculose não era mais problema, os políticos deixaram de investir no sistema de saúde e aí houve um desmantelamento brutal. E não é só no Brasil, no mundo todo, em termos de saúde coletiva, saúde pública para tuberculose. Então fora a questão do empobrecimento, aglomeração urbana, desmantelamento do sistema público, em paralelo, infelizmente, nós nos deparamos com um novo agente, um novo micróbio, que é o vírus da AIDS, que nunca existiu, recente. E o vírus da AIDS, como todo mundo sabe, diminui a imunidade. E mesmo no Brasil, em que nós fornecemos gratuitamente todos os medicamentos para HIV, que é um excelente modelo para o mundo, a maior causa de mortalidade no HIV positivo é a tuberculose. Justamente porque ninguém pensa na tuberculose; as pessoas pensam no HIV, mas não pensam na associação com a tuberculose. Então os pacientes de HIV positivo estão sendo tratados, recebem o melhor medicamento, mas não são diagnosticados para a tuberculose, nos hospitais, nas prisões, nas emergências, porque as pessoas não foram treinadas.

As pessoas que têm uma imunodeficiência, como no caso da Aids, vão a óbito porque não houve o diagnóstico de tuberculose?

Porque o diagnóstico normalmente é tardio. Quando chega o remédio já é muito tarde. O bacilo da tuberculose já se disseminou e já acometeu todo o organismo. Então a questão principal é pensar em Tuberculose sempre. O Ministério da Saúde sugere, segue a orientação da OMS (Organização Mundial da Saúde), de que todos nós devemos pensar a tuberculose em qualquer ambiente, não é só na favela, em qualquer ambiente fechado. Pode ser num banco, pode ser numa igreja, pode ser em qualquer ambiente fechado onde não haja ventilação, nem luz solar e nem renovação do ar. Principalmente em locais onde há ar condicionado, se tiver uma pessoa com tuberculose ela vai contaminar todo mundo naquele andar, e ninguém pensa nisso. Toda pessoa com tosse por mais de três semanas deve saber que precisa fazer o exame de escarro e ir num posto de saúde mais precocemente possível pra afastar a tuberculose.

Hoje, o diagnóstico de tuberculose é um exame simples?

Sim, chama-se baciloscopia do escarro. As pessoas que tem tosse com mais de três semanas são chamadas de sintomáticos respiratórios. Em média, entre as pessoas que tem tuberculose, o exame de escarro dá positivo em 60, 70%, então é um bom teste. Entretanto, ele não é tão bom assim nos pacientes imunodeprimidos, com HIV positivo, câncer ou transplantes. Nesses pacientes o rendimento da baciloscopia é bem menor, é 30%. Para esses pacientes nós precisamos de novas tecnologias, precisamos de cultura que estão sendo avaliadas. O próprio Ministério da Saúde já mudou o manual de normas recentemente, enfatizando que todas as unidades de saúde ofereçam cultura para microbactéria para os pacientes com suspeita de infecção por HIV ou por imunossupressão. Porque com a cultura, o rendimento vai para 90%, melhora o diagnóstico.

Depois desse desmantelamento quanto ao diagnóstico e tratamento da tuberculose, podemos dizer que hoje já temos uma parceria entre universidades, gestores e os atendimentos de saúde para a retomada do diagnóstico precoce?

Felizmente sim, mas isso demorou muito. Esse movimento de integração e colaboração em termos de atividades começou a existir em nível mundial a partir de 2006, quando a OMS lança o plano global 2006-2015, onde, entre os seis temas, um deles é justamente a priorização de pesquisas operacionais. Isso possibilitou que os programas de tuberculose convidassem a academia pra trabalhar novamente em conjunto. Outro tópico que a OMS priorizou foi a questão da mobilização social por meio de ONGs, associações comunitárias, porque o ponto central são os usuários. Nós temos que servir as demandas do usuário. E também o fortalecimento do sistema de saúde, público ou privado, a tuberculose não está apenas no posto de saúde, ela está em todos os lugares, ela está na prisão, no hospital do exército, no hospital da universidade, está na emergência, então se não houver movimento articulado entre todos os setores da sociedade, nós não vamos controlá-la. Temos que aprender com nossos erros do passado.

O senhor já conhecia o Tratamento Diretamente Observado ? TDO, que está sendo desenvolvido em 100% dos pacientes de Paranaguá?

Sim, eu fiquei muito feliz com os resultados. Em Paranaguá, a experiência de tratamento supervisionado proporcionou uma taxa de abandono de 1%. Se não é a menor do país, é uma das menores. A OMS e o Ministério da Saúde sugerem que o abandono seja inferior a 5%, e no Brasil a taxa está em torno de 12%. Então temos que parabenizar, porque o movimento articulado de Paranaguá conseguiu uma taxa bastante baixa de abandono e, portanto, uma taxa alta de cura. A apresentação da auxiliar de enfermagem demonstrou compromisso do profissional; você tem que ter compromisso do político, do gestor, gestor técnico ou político, mas também nosso exército de profissionais deve estar engajado nesse processo e eles demonstraram isso cabalmente. E por isso os bons resultados. A experiência do pessoal de Castro, da regional de Ponta Grossa, que utiliza o teatro é outra estratégia de sensibilizar a sociedade ? ?olha esse problema ainda existe, como nós podemos trabalhar em conjunto com a secretaria de saúde, com o gestor??. E acho que cada local tem que identificar qual é a melhor estratégia para que possa alcançar o controle da tuberculose; ela vai variar de local pra local. Provavelmente o que Paranaguá conseguiu, as estratégias que foram utilizadas não serão suficientes ou não serão tão efetivas em uma outra cidade. Cada local tem que conhecer a si mesmo, a sua rotina, a sua cultura, os seu atores chaves e elaborar uma estratégia própria, visando que o inimigo é o bacilo da Tuberculose, é o vírus da Aids, no caso, muito freqüente. Paranaguá tem a maior taxa de tuberculose do estado do Paraná e a menor taxa de abandono. Eles possuem lá uma taxa elevada de pacientes usuários de drogas, moradores de rua, porque é uma cidade de porto. Isso é um dos grandes problemas hoje do Brasil, a taxa de abandono é alta justamente em locais de coinfecção Tuberculose-HIV, usuários de droga, moradores de rua, que são as pessoas mais difíceis de se tratar, de usar o medicamento de forma regular e pelo tempo adequado. Mas Paranaguá conseguiu, como em outros lugares também.

O senhor acaba de chegar da Bélgica, onde foi também falar sobre a tuberculose. Há algo mais que queira destacar sobre o assunto?

O mais importante é o compromisso político, o que me parece que o secretário de Saúde tem. Eu sugiro fortemente uma lógica integradora. A tuberculose não é apenas uma doença biológica. Que outros movimentos, como as demais secretarias do Estado do Paraná, Ciência e Tecnologia, Educação, Justiça, pudessem ter um encaminhamento articulado na questão da tuberculose. A Ciência e Tecnologia ajudando o financiamento de pesquisas operacionais que respondam às demandas das várias regiões do estado. Porque eu vejo que as ações do Ministério da Saúde estão muito fragmentadas. As pessoas não estão sabendo o que o outro grupo está fazendo. Eu estava na Bélgica com o pessoal da União Européia, e posso dizer que os holofotes estão voltados pra o Brasil. Todos querem saber quais são as atividades que o Brasil está fazendo de sucesso ou de insucesso, para que isso possa de alguma forma ser exemplo para outros países do mundo.

FONTE: Secretária de Saúde do Paraná - 25/03/2011