quinta-feira, 21 de fevereiro de 2008

Lula "deu a senha"para o PT imitar Edir Macedo


Postado por Luiz Weis em 21/2/2008 às 9:00:58 AM


Sim, o nome completo do jornal Valor é Valor Econômico, mas nem por isso se justifica a ausência de qualquer menção na primeira página de sua edição de hoje ao materiaço político, ainda por cima exclusivo – apurado pelos craques Raymundo Costa e Cristiano Romero - “Ações da Universal encorajam PT”, precedido do antetítulo não menos revelador “Posicionamento de Lula reforça disposição do partido de reagir à imprensa".
É o texto mais importante do noticiário nacional do dia – e vai repercutir por muitos mais.
Eis a reportagem [negritos acrescentados]:
“Ao defender tacitamente a abertura de dezenas de ações judiciais da Igreja Universal do Reino de Deus (Iurd) contra jornalistas e órgãos de imprensa, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva deu força a um movimento em curso no PT, onde há algumas semanas já se discutia a hipótese de militantes espalhados por todo o país fazerem o mesmo, sempre que considerarem que Lula ou o partido se sentirem ofendidos por uma reportagem. O assunto foi discutido recentemente quando os jornais colocaram o PT em destaque ao se referirem a supostas irregularidades, atribuídas ao PTB, cometidas na Empresa de Correios e Telégrafos.
Lula deu a senha, segundo petistas, quando afirmou que a liberdade de imprensa pressupõe o jornalista escrever o que quiser e, quem for atingido por isso, ter o direito de reivindicar reparos na Justiça. “No dia em que a ´Folha de S. Paulo` se sentir atingida pela Igreja Universal, ela vá processar a Igreja Universal. No dia em que a Igreja Universal se sentir atingida pela ´Folha de São Paulo´, ela vá processar a ´Folha` -– e, assim, a democracia vai se consolidando no Brasil", disse Lula na segunda-feira, numa declaração que deixou eufóricos tanto deputados petistas quanto ministros do governo, que pensam da mesma forma que ele.
Lula referia-se à série de ações movidas pela Universal contra a ‘Folha’, contestando reportagem publicada pelo jornal sobre as atividades empresariais da igreja e seu líder, Edir Macedo. O número de ações - 56, em 20 Estados, além de outras 35 movidas contra o jornal baiano A Tarde e cinco contra o carioca Extra’ - fez juristas alegarem que seus autores estariam promovendo ‘litigância de má-fé, isto é, o uso da Justiça para atingir um objetivo ilegal - a intimidação da imprensa e o cerceamento do direito à defesa.
Na terça-feira, o vice-presidente da Associação Nacional dos Jornais (ANJ), Júlio César Mesquita, classificou a estratégia da Igreja Universal de ‘escalada obscurantista’ contra a liberdade de imprensa. No PT e em alguns setores do governo, as ações contra a imprensa reavivaram um sentimento de vingança contra a mídia, adormecido desde a crise do mensalão. ‘Processar jornalistas não é cercear a liberdade de imprensa’, comentou um ministro.
No partido, a idéia é que militantes, em cada Estado da federação, que se sintam ofendidos por reportagens contra o presidente e o partido acionem jornalistas e órgãos de imprensa responsáveis pela publicação. A experiência da Universal também pode ser aprimorada, segundo as discussões em andamento. Por exemplo: o texto das ações movidas em cada Estado deve ser diferente, para não deixar margem para que a Justiça os considere ‘litigantes de má-fé’. A exemplo do que ocorre no governo, o PT também se acha vítima de preconceito da grande imprensa.
Ao comentar o assunto, o presidente Lula, na realidade, defendeu um aliado do governo. Após ter sido demonizado pela Igreja Universal nas eleições de 2002, recebeu seu apoio na campanha da reeleição, em 2006. Nesse período surgiu também o PRB, que é chamado em Brasília de ‘partido do vice’ (José Alencar), mas que na verdade é um braço político da Universal.
A ligação do governo com a bancada evangélica vai além do PRB. Deputados evangélicos, segundo fontes, recebem tratamento preferencial do Palácio do Planalto, independentemente da sigla em que se encontram abrigados. Lula participou, por exemplo, da inauguração da Record News, um dos braços de comunicação da Igreja Universal, ao lado do bispo Edir Macedo, o que causou irritação e atrapalhou uma reaproximação então em curso com a Igreja Católica. ‘Lula não tem preconceito contra a Igreja Universal’, disse ontem um auxiliar direto do presidente.
A declaração de Lula em Vitória surpreendeu até antigos aliados do presidente, como o deputado Chico Alencar (PSOL-RJ), pelo fato de ele ter tomado partido de um dos lados em uma demanda judicial, o que não seria de seu feitio. ‘É evidente que se trata de uma ação orquestrada (os processos da Igreja Universal contra a Folha e os outros dois jornais)’, diz Chico Alencar. ‘Só não vê isso quem tem medo de perder os votos do rebanho’, acrescentou.
No Palácio do Planalto, ministros e assessores do presidente negam a existência de um acordo político com a Igreja Universal. Segundo eles, o governo tem na sua base de apoio parlamentar tanto representantes da Iurd, como o senador Marcelo Crivella (PRB-RJ), quanto da Igreja Católica. As ações da Universal, de acordo com esses assessores, contra a ‘Folha’ e os outros jornais não preocupam Lula.
O Palácio do Planalto também nega que o presidente tenha defendido a abertura de ações contra a imprensa. ‘Lula não falou isso. O governo não dá apoio às ações. O que ele disse é que, numa democracia, todo mundo tem o direito de escrever o que quiser, mas quem se sentir atingido também tem o direito de contestar o que foi escrito", sustentou um ministro. ‘Esse é um problema que afeta grupos privados. O governo tem que garantir o Estado de Direito e a liberdade de imprensa, mas não cabe ao governo impedir que um cidadão vá à Justiça’, observou um assessor.
’Se a lei permite que haja essa chicana jurídica, com a abertura de ações em vários Estados, o governo não pode fazer nada’, acrescentou um colaborador direto do presidente. ‘Os jornais, por sua vez, têm todo o direito de se defender’, ressalvou. Segundo esse auxiliar, embora o governo não queira entrar no mérito do que considera uma ‘disputa judicial’, é ‘preocupante’ a forma como a Iurd arrecada fundos para montar seus negócios - por meio da cobrança de dízimos dos fiéis. Este foi um dos temas levantadas pela reportagem da ‘Folha’.”

Outra polêmica envolvendo a imprensa.


Postado por Carlos Castilho em 21/2/2008 às 10:34:58 AM


Mais uma briga de cachorro grande na mídia brasileira. E mais uma vez o leitor fica ao sabor dos acontecimentos, porque o que está sendo publicado é apenas uma parte da questão.

Tanto um lado como o outro têm estratégias bem definidas e objetivos claros. Só que os objetivos não têm nada a ver com questões religiosas e nem preocupações com a informação do leitor. Tanto a Igreja Universal do Reino de Deus (IURD) como os jornais que publicaram reportagens sobre os negócios do bispo Edir Macedo estão preocupadas mesmo é com as conseqüências financeiras da polêmica.

A IURD está preocupada com os efeitos que as denúncias da Folha, bem como dois outros jornais - um do Rio e outro da Bahia -, possam ter nas parcerias corporativas necessárias para a expansão do império econômico fundado pelo bispo Macedo.

Por seu lado, a Folha e os demais jornais temem que a onda de processos judiciais contra a jornalista Elvira Lobato e os repórteres Bruno Thys (jornal Extra, RJ) e Walmar Hupsel Filho (A Tarde, BA), autores de três reportagens diferentes, acabe saindo muito caro em indenizações e custos judiciais.

A estratégia de ambos os lados é esgrimir o conceito de liberdade: a religiosa e a de imprensa. São dois argumentos de peso em matéria de estratégia de marketing político, mas frágeis em termos de conteúdo. As reportagens não ameaçam a liberdade religiosa no país, no máximo os negócios do bispo Macedo, da mesma forma que as ações judiciais interpostas por fiéis da IURD não ameaçam as liberdades da imprensa e de informação.

Enquanto isto, os leitores (pelo menos os do Observatório) fazem uma leitura diferente da questão. Não mostram simpatias com a Igreja Universal, mas também não poupam a imprensa. Muitos fazem uma ligação entre o episódio IURD/Folha com a polêmica Nassif/Veja.

É impossível saber se os leitores que postam comentários na página do Observatório podem ser considerados representativos ou não da blogosfera brasileira. Não há pesquisas sobre isto. O que se pode ver é que também noutros sites, como o
Comunique-se e o Blog do Noblat, uma boa parcela de leitores não está comprando, incondicionalmente, a versão dos jornais, e nem está apoiando o bispo Macedo.

Isto mostra que um segmento do público leitor brasileiro começa a dar sinais de maturidade para experimentar fórmulas colaborativas de produção de informações, uma das grandes inovações introduzidas pela Web.

Este caso da polêmica entre a IURD e três jornais brasileiros pode servir de aprendizado inicial para quem desejar testar a nova modalidade de produção de noticias. Claro que cada leitor tem sua posição. O problema não é ter opinião, e sim oferecer novos fatos, dados e notícias sobre situações que conhecemos pouco, para que este material possa ser transformado em informação por meio da interação entre os protagonistas.

Os leitores já devem ter visto que a fase do bate-boca cansa rapidamente e geralmente cria mais dissidências do que comunidades. Por que então não experimentar deixar de lado a paixão e preocupar-se com a realidade, porque é o conhecimento dela que nos está faltando há muito tempo? A Web nos dá esta possibilidade de produzir informação.

quarta-feira, 20 de fevereiro de 2008

O culto ao líder


“Duvide. Nenhuma fé até hoje foi tolerante. A dúvida é a tolerância. A fé levantou fogueiras, a dúvida não as levantará jamais. Toda fé é uma tirania e todo crente é um escravo. Não acredite”Vargas Vila*O culto à personalidade é uma espécie de patologia que acomete as diversas gerações que se fanatizam em torno dos “ismos” que gravitam da extrema-esquerda à extrema-direita. A esquerda tem os seus heróis; a direita também. Os seguidores dos profetas, armados ou desarmados, veneram seus ícones à maneira religiosa e maniqueísta. E, assim, os “pequenos profetas”, discípulos e apóstolos da razão, digladiam-se em nome do “bem” e do “mal”, da “linha justa”, valores que dependem da ideologia de cada um.Os grandes dilemas históricos da humanidade parecem se encarnarem no papel desempenhado por determinados indivíduos. É interessante que a crítica à concepção da história fundamentada na ação de indivíduos heróicos, seja acrítica quando se trata daqueles que venera. Mudam os nomes e os que eles representam, mas parece que todos, à direita e à esquerda, precisam de heróis.As ações, opções e idéias dos indivíduos, especialmente quando ocupam posições influentes no aparato do Estado e/ou na sociedade, tem importância e devem ser consideradas. Mas eles agem e reagem sob condições históricas específicas. Não é possível compreendê-los plenamente sem levar em conta este fator. Restringir-se ao âmbito individual é desconsiderar a interação dialética entre estes e os contextos históricos das sociedades nas quais atuam; é desconsiderar as contradições e interesses dos grupos e classes sociais na relação com o líder.Porém, os líderes falham e perecem – embora alguns se tornem imortais nos corações e mentes das gerações vindouras. Todo líder que se preza, mesmo o que expressa o “mal”, sempre a depender da identificação ideológica, tem o seu séqüito. Mesmo os “pequenos líderes”, aqueles cujo raio de ação se restringe a espaços exíguos como a sala de aula, geram os seus seguidores.De onde vem essa necessidade de seguir o líder? Uma explicação plausível reside no fato dos líderes sintetizarem as ideologias e de, geralmente, terem o controle dos meios econômicos, políticos e simbólicos para que os “ismos” se materializem. Mas há líderes que nada tem a oferecer, a não ser a vaga promessa da utopia e, mesmo assim, arrebanham discípulos. Será que isto se explica apenas pelo carisma? O líder carismático produz “milagres profanos” como convencer os incautos a segui-lo, mesmo que em direção ao abismo, e a compactuar com meios que negam os fins redencionistas.Os discípulos tendem a reverenciar o líder, de forma acítica e submissa. O que explica a a necessidade de obedecer? Talvez a obediência seja uma maneira de eliminar a angústia da dúvida e se sentir seguro. Quem obedece cegamente perde o senso crítico, não ousa pensar com a própria cabeça e desafiar a verdade transformada em dogma.Compreendo a necessidade humana de agir como ovelhas e passar a vida a obedecer o “pastor” e a repetir suas verdades. Talvez a “servidão voluntária” proteja do desespero. Quem sabe, o culto ao líder conforte! Sempre há a esperança da recompensa, de alcançar o “paraíso”. No fundo, quem se submete é tão inseguro quanto a personalidade autoritária que cultua. Em seu âmago, teme a liberdade e execra a dúvida. Por isso, se recusa a pensar criticamente, basta-lhe repetir os slogans do líder e segui-lo.O culto ao líder cega em todos os sentidos. Mesmo assim, se revigora. Contraditoriamente, alimenta-se na fonte da tradição e manifesta-se na adesão a novos líderes. Há sempre indivíduos ávidos de seguirem os novos profetas com suas promessas de redenção da humanidade.__________* In: BAZZO, Ezio Flavio. Assim falou Vargas Vila. Brasília, Companhia das Tetas Publicadora, 2005. Sobre este livro sugiro a leitura do texto “Assim falou Vargas Vila” – Anátemas sobre livros, amizade, política, religião etc.”, publicado na Revista Espaço Acadêmico, nº 61, junho de 2006.

Hoje foi o primeiro dia da volta às aulas. Acompanhei a minha filha em parte do trajeto e aproveitei o retorno da rotina escolar para caminhar. O dia ainda estava em meia obscuridade. Os primeiros raios de sol se insinuavam. Logo, o sol se imporia em sua plenitude. Coisas do horário de verão que o Estado nos impõe.
Após ela pegar o ônibus para a escola, continuei a andar. O meu trajeto não é pré-estabelecido, faço o caminho ao caminhar. Maringá é uma cidade arborizada e é prazeroso andar ao amanhecer, sentir o odor da natureza, a brisa amena e a temperatura aumentar à medida que o sol se levanta e o tempo avança.
Passei em frente ao cemitério e olhei para o seu interior. Esta visão reafirma o quanto frágil é o ser humano e qual o destino final do caminhar na estrada da vida. A consciência da finitude alimenta a humildade. Num mundo onde a impera a vaidade, e isto parece ser mais forte no campus universitário, é um bom antídoto.
* Pouco à frente, vi um cachorro morto e, instintivamente, desviei meu olhar. Fiquei a pensar como a morte se apresenta em várias facetas e porque nos atemorizamos.
Segui o caminho e me ocupei com outras imagens e reminiscências. Mais adiante, várias mulheres aguardavam, em frente a uma indústria, o início da labuta diária. Também observei uma oficina mecânica, com máquinas aparentemente ultrapassadas, mal iluminada, poeirenta e suja. Novamente, meu pensamento regressou no tempo e eu senti orgulho das minhas origens.Lembrei das fábricas de auto-peças de Diadema, onde a mão-de-obra era majoritariamente feminina. Recordei os anos de convívio com aquelas operárias, na porta de fábrica distribuindo a Tribuna Metalúrgica, em reuniões e assembléias. Na atividade sindical descobri a necessidade de atuar politicamente, a utopia e a paixão pelo saber. Mas também me descobri apaixonado e fui agraciado com um tesouro de valor imensurável: minha família.
A militância sindical e partidária transformou muitos daqueles companheiros em figuras notáveis que aparecem na mídia nem sempre por motivos ilustres. Alguns se tornaram deputados e altos dirigentes em postos do Estado. Um até chegou à presidência da república!
Após muito andar e pensar, me vi diante da escola que minha filha estuda. Ainda havia estudantes em frente ao prédio. Observei-os. Eles pareciam felizes pelo reencontro. Estão numa idade em que a vida parece uma festa, vivem o agora. De novo, recordei aquelas operárias cujos filhos, e mesmo elas, muito provavelmente foram obrigados a abandonar os estudos ou estudar à noite para trabalhar e ajudar no orçamento. Muitos tiveram que sacrificar a adolescência. Sem isso, o futuro estaria comprometido.

Os filhos da classe média agem como se o futuro lhes pertencessem. Suas preocupações não são as essenciais, das quais depende a própria sobrevivência. Se isto parece vantajoso, pois os pais podem garantir as condições para que se dediquem apenas aos estudos, trás o risco de não desenvolverem a autonomia e responsabilidade necessárias para viverem em sociedade. Mimados e sem a consciência das dificuldades que a realidade impõe, tendem a imaginar que tudo podem. E se tornam um perigo para si mesmos e a sociedade.

Lembrei de quando era criança e adolescente, das escolas que passei e dos professores e professoras que marcaram ou simplesmente passaram pela minha vida. Senti saudade e uma certa ponta de tristeza. Quando temos muito que lembrar e tempo para fazê-lo, é sinal de que estamos idosos ou próximos da velhice. Mas isso tem lá as suas vantagens...

Sobre a vaidade no campo acadêmico


Ele entra na sala de aula e escreve o seu nome na lousa: Prof. Dr. fulano de tal. Durante sua brilhante exposição – de acordo com a sua própria opinião – um aluno, um tanto desatento às exigências hierárquicas e ritualísticas, lança-lhe uma pergunta. O problema não está no questionamento. O Prof. Dr. fulano de tal, do alto da sua sapiência naquilo que lhe dá o status de “o” especialista, tem resposta para tudo (e se não tem, enrola, pois quem ousará duvidar da sua autoridade?!). Não, a irritação que o Prof. Dr. fulano de tal expressa em seu tom de voz é uma reação à impertinência do aluno. E ele, o professor, deixa-o claro na resposta: “Aqui em sala de aula – e aponta para o escrito na lousa – sou o Prof. Dr. fulano de tal. Pobre aluno que ousou chamá-lo apenas de professor!
Ela é doutora, uma das poucas naquela instituição. Isto lhe parece garantir status diferenciado em relação aos demais. Os colegas comentam nos corredores sobre a arrogância da Profª Drª fulana de tal. Mas eles têm lá as suas vaidades e, no final das contas, a Profª Drª fulana de tal sabe que, embora não tenham o mesmo título, desempenham a mesma função – e quem sabe, sejam melhores naquilo que fazem! Por via das dúvidas, ela tem o cuidado de não ultrapassar certos limites. Muito diferente se dá em relação aos seus alunos. Estes, coitados, têm apenas como mérito a vitória no funil do vestibular. Para a ela isto não tem grande valor – e talvez ela tenha razão, pois não há correspondência direta entre memorização de conteúdo, inteligência e capacidade de reflexão crítica.
[1] Ela não admite intromissão dos alunos; os que ousam lhe dirigir a palavra são rispidamente colocados em seu devido lugar. A Profª Drª fulana de tal não admite, sobretudo, questionamentos sobre as verdades que verte diante dos pupilos. Os que insistem em questioná-la são silenciados e ela não hesita em usar adjetivos nada positivos para aquelas mentes em formação. “São uns burros! Estudem primeiro!” (Quem sabe quando tiverem doutorado possam conversar de igual para igual; o que não sabemos é se a Profª Drª fulana de tal ainda estará sobre ou sob a face da terra). Mas eis que os alunos decidem protestar e mostram que são inteligentes o suficiente para adotar uma estratégia cujo resultado é tão positivo quanto dolorido: o desprezo. Um belo dia ela se dirige à sala de aula e se vê diante de uma situação inusitada: a sala está vazia; os alunos e os móveis utilizados por estes estão na parte externa da sala; dentro, apenas a mesa da Profª Drª fulana de tal. A propósito para que serve o educador se não tem a quem educar?
Ele é um excelente professor. Domina o conteúdo e se impõe em sala de aula. Para ele, rigor científico equivale às grandes teorias expostas por autores que escrevem em estilo ininteligível para a maioria dos seres mortais.
[2] Para ler tais textos, e compreendê-los minimamente, seus alunos precisam recorrer aos dicionários das várias áreas do conhecimento humano. Ele não se importa, afinal já sabe e teve que passar por isso. Sua linguagem obedece à formação teórica, política e ideológica que teve: é igualmente ininteligível. Numa das suas aulas, os alunos conseguem trazê-lo para o mundo real e estabelecem acirrado debate sobre as eleições. Ele se vê pressionado pelo questionamento da sua posição política. Então, ele recorre àquele tipo de argumento aparentemente inquestionável e que finda qualquer discussão: “Vocês não compreendem, vocês só lêem o jornal Folha de S. Paulo”. Pronto! Em outras palavras: “Como ousam discutir comigo, eu que tanto li e que tenho a experiência dos anos? Cresçam, leiam os textos que li, estudem os autores que estudei e, então, talvez terão condição de me questionarem”. A vaidade dificulta o entendimento de que a retórica pomposa nem sempre dá conta de tudo; que a realidade é mais rica que a cinzenta teoria; e que, para se posicionar politicamente, nem sempre é necessário o domínio das teorias complexas. Sua atitude demonstra uma visão elitista e preconceituosa em relação ao conhecimento que não se enquadra nos cânones formais da academia. O professor perdeu o debate político, as estribeiras e do alto da sua alegada experiência, fundada no acúmulo de leituras, ele se mostra incapaz de manter o equilíbrio diante dos seus tão inexperientes alunos. Ele perdeu também a oportunidade de refletir sobre os vínculos entre a excelência do seu conhecimento teórico e a vaidade no inconfessável sentimento de superioridade.
Ela escreve mal. Seu estilo é panfletário. Uma eterna repetição de slogans e fórmulas desgastantes, recheadas por inumeráveis citações, argumentos de autoridade que, repisados à exaustão, demonstram pelo menos uma coisa: ela é leitora de um único autor.
[3] Sua verdade é a verdade revelada pela interpretação do texto sagrado. Ela talvez não tenha consciência do que faz, mas age como sacerdotisa de um culto profano. É a guardiã do dogma, é sectária. Mas... ela é sua Ex.ª a Drª., e tudo lhe será perdoado! Como disse Aquele cujo nome conhecemos: “Ela não sabe o que faz!” Ela continuará a associar as palavras e se imagina a auctoritate no assunto. Uma autoridade menor, é verdade; uma espécie de reflexo de uma luz maior e poderosa, isto é, a autoridade na qual se espelha e cita abusivamente.[4] Ela propaga esta luminosidade, se nutre dela. Em sua humilde condição de discípula, ela se vê como o instrumento de difusão da energia que deve alimentar a humanidade. Todo o seu poder advém do autor sacralizado e dos seus livros canônicos.[5] Não obstante, não esqueçamos: ela é a Ex.ª a Drª E isto lhe dá mais força em sua missão redentora; dá-lhe, ao menos, a condição de estabelecer um séqüito de aprendizes e guardiões do dogma. Seu profeta ainda não foi canonizado pela Santa Madre Igreja, mas foi elevado à altura dos cânones reconhecidos pelos profanos, os quais constituem várias igrejas – que polemizam entre si, mas se saciam nas mesmas fontes.
Ele escreve bem! Seu estilo é erudito e demonstra ruptura com os enquadramentos estanques entre as diversas áreas do conhecimento humano. Definitivamente, ele não é um especialista. O que o qualifica positivamente, pelo menos na percepção de alguns dos seus colegas, é visto como embuste pelos mexeriqueiros a postos. “É um charlatão!”, dizem as más línguas. Não devemos legitimar este tipo de comentário, nem participarmos do jogo mais antigo e preferido dos que passam a própria vida a falar da vida alheia. Contudo, como diz o dito popular, “onde há fumaça, há fogo”. Quando se escreve sobre tudo e todos, arrisca-se a perder o bom senso sobre a limitada capacidade humana em relação ao conhecimento. Assim, se tais injúrias nos chegam aos ouvidos, devemos ter o bom senso de pensar sobre o nosso proceder. Mas eis que entra em cena a vaidade: imersa em sua própria luz, sua Ex.ª o Dr. faz ouvido de mouco. E a sua fama atinge o ápice. Um olhar atento e não propenso aos mexericos poderia ajudá-lo a perceber que sua pretensa erudição não é suficiente para mascarar o conhecimento enciclopédico e dicionáristico; e, talvez o mais importante, poderia contribuir para que ele tivesse o bom juízo de não se imiscuir no que não deve. Mas quem ousará falar-lhe sobre tema tão complexo e, ainda por cima, tenha a capacidade de não ferir sua vaidade? O risco é que ele, embevecido, não o escute e ainda lhe atire a pecha de invejoso ou algo parecido.
Seja num ou noutro caso, o que escreve bem ou mal, é muito difícil tecer qualquer comentário sem ferir susceptibilidades. A propósito, há no meio acadêmico uma falsa identificação entre titulação e capacidade de escrever. O fato de o indivíduo ter o título de doutor não é garantia automática de que ele saiba escrever bem e, muito menos, que é um bom professor – no sentido didático e pedagógico. Escrever bem não é apenas juntar palavras e formar frases altissonantes. A suposta erudição demonstrada num texto ininteligível não é, necessariamente, uma qualidade intelectual; pode ser, simplesmente, pura afetação. A complexidade na linguagem muitas vezes caracteriza um exercício de arrogância, de pose acadêmica, relacionado à necessidade do intelectual em se firmar pelo status.
[6]
Mas, voltemos à sua Ex.ª o Dr. No fundo ele se imagina imune ao risível. Portanto, ele age com naturalidade, como se os simples mortais, incluindo seus alunos, fossem obrigados a pagar um tributo à sua titulação. Estes, por seu turno, projetam nele o futuro a ser alcançado. Suas atitudes passam a ser modelares – para o bem e para o mal. Além de modelo a ser seguido – ou repudiado – o Prof. Dr. fulano de tal, pela posição que ocupa na hierarquia acadêmica, tem recursos para manter aos alunos sob sua dependência.
É claro, há as exceções. Tomemos os exemplos acima como tipos ideais. Não significa que existam na realidade exatamente como descritos, mas representam espécies que podem ser encontradas na selva acadêmica. E, a favor, destes tipos, devemos acrescentar que: 1) a cultura e os valores predominantes no campo acadêmico são elitistas; 2) a universidade reproduz os princípios que fundamentam a competição na sociedade; 3) a vaidade é humana.
Demasiadamente humano
A vaidade é humana, demasiadamente humana! Eis um pleonasmo necessário. Sim, porque muitas vezes são precisamente tais características as que menos se tornam objeto de nossas reflexões – e não me refiro aos exercícios mentais filosóficos, sociológicos ou coisa do tipo, mas sim, a uma atitude que, me parece, deveria pautar nossas ações cotidianas. Comecemos por assumir que, em menor ou maior grau, todos somos vaidosos. Já os antigos, através do mito de narciso, ensinaram que o desejo desenfreado em atrair a admiração e a atenção produz conseqüências que podem ser trágicas. No limite é uma demonstração de tremenda sandice.
É incrível como, mesmo diante de situações nas quais a vaidade não faz qualquer diferença, os homens e mulheres não conseguem se livrar deste sentimento. O diálogo entre um jardineiro e o visitante de um cemitério, escrito por Alexandre Dumas Filho (2003:47), em A Dama das Camélias, ilustra bem este aspecto:
“Quero dizer que existe gente que é orgulhosa até no cemitério. Parece que esta mademoiselle Gautier fazia a vida, desculpe a expressão. Agora ela está morta e é igualzinha às mulheres que nada fizeram de reprovável e das quais regamos as flores todos os dias. Pois bem, quando os parentes das pessoas que estão enterradas ao lado dela souberam a vida que essa moça levava, revoltaram-se por ela ter sido enterrada aqui e disseram que deveria haver um lugar só para esse tipo de mulheres, como há para os pobres. O senhor já viu uma coisa dessas? Eu teria postos essas pessoas no lugar deles! Gente gorducha que vive de rendas, que não vem sequer quatro vezes por ano visitar seus defuntos, que traz pessoalmente as flores... e veja que flores! Eles reclamam dos gastos de conservação das sepulturas daqueles por quem dizem chorar, escrevem nas lápides sobre lágrimas que jamais derramaram e se fazem de difíceis, querendo escolher a vizinhança”.
Durante muito tempo acreditei que a morte nos igualava. “Pelo menos isso!”, pensava. Hoje, tenho consciência de a sociedade cria desigualdades que extrapolam o próprio caráter da finitude humana. Mas deixemos estes homens e mulheres de ares aristocráticos em seus próprios devaneios e retomemos o fio da meada.
Max Weber observou que a vaidade pode levar o político a cometer um dos pecados fatais em política, ou ambos, simultaneamente: se abster de assumir uma causa e do sentimento de responsabilidade. Se o político está sujeito à vaidade, o intelectual padece da mesma doença. “A vaidade é um traço comum e, talvez, não haja pessoa alguma que dela esteja totalmente isenta. Nos meios científicos e universitários, ela chega a constituir-se numa espécie de moléstia profissional”, sentencia Weber. (grifos nosso) Não obstante, o sociólogo alemão é condescendente com os colegas acadêmicos, pois considera que a vaidade do intelectual não oferece tanto risco à sua atividade quanto o que ocorre em relação ao político: “Contudo, quando se manifesta no cientista, por mais antipatia que provoque, mostra-se relativamente inofensiva, no sentido de que, via de regra, não lhe perturba a atividade científica”. (WEBER, 1993: 107) Será?! Para o estudante ou o colega que tem que suportar a vaidade desmedida, talvez seja o oposto que ocorra. Do ponto de vista puramente empírico, os que nos oferecem mais riscos são os que estão mais próximos!
Mas deixemos Weber em paz! Independentemente das suas formulações sobre a vocação do cientista e do político, o fato é que esta “espécie de moléstia profissional” grassa em nosso meio. E as pessoas sensatas talvez se perguntem: por que? Há, inclusive, a espécie de ingênuo que candidamente imagina que este tipo de comportamento é algo contraditório com o espírito culto que, em tese, permeia a universidade. “Como é possível?, se pergunta. Ele tem a esperança de que os colegas, através do diálogo e da persuasão, superem as influências nefastas que os fazem agir incivilizadamente. Como diria aquele personagem das histórias em quadrinhos: “Santa ingenuidade!!!”.
Todavia, observe-se que mesmo este tipo de ingênuo padece da mesma “espécie de moléstia profissional”: na essência sua postura é prisioneira de uma vaidade enrustida numa pretensa humildade; é uma atitude idealista, no sentido de que desloca a universidade – e os que nela trabalham – da realidade social na qual está inserida; é elitista porque, no fundo, se imagina como partícipe de um mundo constituído por seres especiais, dotados de moral e cultura superiores e capazes de escapar às futilidades humanas. Este personagem não se reconhece no mundo real e se escandaliza porque seus pares não representam o mundo imaginário do Olimpo. É vaidoso e talvez não o saiba porque lhe parece natural a vaidade de sentir-se superior!
Concluindo...
Se a vaidade é humana, não é possível compreendê-la apenas pelo senso comum quanto às atitudes observáveis no campo acadêmico. A sociologia pode contribuir para compreendermos este fenômeno.
[7] E isso talvez seja um bom começo para evitarmos repetir o que reprovamos nos outros. Mas, é claro, a sociologia – ou as grandes teorias, em geral – não são antídotos para tal moléstia. Um grande passo para quem deseje se curar é voltar-se para si mesmo e... mudar de atitude. No mais é necessário muita, muita, muita paciência!
[1] Em artigos publicados nesta revista procuramos analisar criticamente o vestibular e o método de ensino decoreba, um dos seus principais pilares, e que influi sobre todo o processo de ensino-aprendizagem, do nível fundamental ao superior. Ver: À mestra e ao mestre com carinho e compreensão!; O engodo do vestibular e os dilemas da classe média empobrecida; “Estudo Errado”: Qual é a capital de Kubanacan?; e, As dimensões da relação aprender-ensinar; e, Vale nota, professor?!
[2] Em certos casos, a complexidade das grandes teorias também pode ser um recurso para que elas se firmem, tornando-se áreas restritas à uma ínfima minoria de especialistas. Tais teorias, como assinalou MILLS (1982:30) na crítica a Parsons, padecem de “um formalismo complicado e árido, no qual a divisão dos Conceitos e uma interminável redisposição torna-se a principal tarefa”. É preciso traduzi-las. E, então, fica nítido que a sua complexidade é um recurso formalista, ou seja, que não é preciso escrever longos e ininteligíveis parágrafos para explicar as coisas simples. Os conceitos são necessários, mas é preciso relacioná-los com a realidade social e movimentar-se entre os diversos níveis de abstração. Em geral, a ininteligibilidade esconde o fetichismo dos conceitos e cumprem uma função excludente, gerando a ilusão de que o seu domínio torna alguns superiores aos demais.
[3] A necessidade de citar e recitar está vinculada a uma espécie de humilde sacerdócio. Como analisa BOURDIEU (1998: 162): “O sacerdócio comum cita e recita; o grande sacerdócio suscita e ressuscita. Pode acontecer que leve a audácia até o ponto de expor as discordâncias ou mesmo as contradições (é o caso de Abelardo) encontradas nas fontes de revelação”.
[4] A identificação com o ‘profeta’ não é apenas um exercício de sacerdócio, ela gera dividendos, isto é, ‘lucros’: “O eu sacerdotal deriva da autoridade do profeta de origem; todavia, por maior que seja a modéstia (condição de participação no capital herdado de autoridade) que o impede de falar efetivamente na primeira pessoa, ele não pode esquecer que possui algum mérito por restaurar o capital em sua integridade através da desbanalização, revolução da leitura que define a revolução letrada.” (BOURDIEU, 1998: 160 e 62) Ele é o instrumento de propagação da palavra, a qual, proferida por ele parece-lhe ter a mesma autenticidade daquela pronunciada (escrita) pelo profeta de origem: “O sacerdócio se instaura como guardião da autenticidade da mensagem, a única capaz de proteger contra a “recaída” nos erros...” [em relação ao profeta] (Id.: 162-63).
[5] “Só o discípulo faz legitimamente o “sacrifício do intelecto” em favor do profeta, como só crente o faz em favor da Igreja. Nunca, porém, se viu nascer uma nova profecia (...) em razão de certos intelectuais modernos experimentarem a necessidade de mobilizar a alma com objetos antigos e portadores, por assim dizer, de garantia de autenticidade, aos quais acrescentam a religião, que aliás não praticam, simplesmente pelo fato de recordarem que ela faz parte daquelas antiguidade. Dessa maneira substituem a religião por um sucedâneo com que enfeitam a alma como se enfeita uma capela privada, ornamentando-a com ídolos trazidos de todas as partes do mundo. Ou criam sucedâneos de todas as possíveis formas de experiência, aos quais atribuem dignidade de santidade mística, para traficá-los no mercado de livros. Ora, tudo isso não passa de uma forma de charlatanismo, de maneira de se iludir a si mesmo”. (WEBER, 1993: 50)
[6] Com enfatiza MILLS (1982:235): “Escrever é também pretender para si um status pelo menos bastante para ser lido. O jovem acadêmico participa muito de ambas as pretensões, e porque sente que lhe falta uma posição pública, com freqüência coloca o status acima da atenção do leitor a quem se dirige.(...) O desejo do prestígio é uma das razões pelas quais os acadêmicos escorregam, com tanta facilidade para o ininteligível”. Mas também é o caso do acadêmico já em idade avançada, que, por arrogância ou falta de criatividade, procura impressionar pela falsa erudição.[7] A sociologia e, também a literatura e o cinema. Ver: Óleo de Lorenzo e Patch Adams: A arrogância titulada; Os intelectuais diante do mundo: engajamento e responsabilidade; e, Aqui jaz fulano de tal... e a sua superioridade!

A arrogância titulada


Ao verme que primeiro roeu as frias carnes do meu cadáver dedico como saudosa lembrança estas memórias póstumas. (Machado de Assis)
A sabedoria vale mais que a força; mas a sabedoria do pobre é desprezada e às suas palavras não se dão ouvidos. (Eclesiastes 9,16)

Todos os dias, milhares de pessoas se submetem ao deus criado pela humanidade: sua santidade o cientista. Seu santuário localiza-se nos edifícios dos modernos laboratórios, hospitais e universidades. Em todos os lugares, encontramos o especialista, guardião do conhecimento científico, o qual, pretensamente, tem resposta para todos os males que afligem a humanidade. São os pequenos profetas, representantes do saber canônico legitimado pela sociedade, autoridades instituídas que têm o poder da palavra. Como escreve Bourdieu:
“A especificidade do discurso de autoridade (curso, sermão etc.) reside no fato de que não basta que ele seja compreendido (em alguns casos, ele pode inclusive não ser compreendido sem perder seu poder), é preciso que ele seja reconhecido enquanto tal para que possa exercer seu efeito próprio.” (1998: 91)
Os estudantes, por exemplo, ficam extasiados com a erudição do mestre. Em certas circunstâncias, quanto mais incompreensível for o discurso do professor mais ele parecerá inteligente. Em geral, passa despercebido o fato de que a instituição universitária legitima o discurso professoral: o docente não precisa saber, mas sim aparentar que sabe. Tempos atrás, havia uma novela onde o personagem, estilo professor-filósofo, discursava em solenidades e o público ficava boquiaberto com tanta sabedoria e erudição; na verdade, embromação.
Este tipo de autoridade se impõe devido à nossa cumplicidade. Quando procuramos o médico aceitamos de bom grado a sua autoridade: suas palavras expressam a verdade científica. Como nós, míseros ignorantes, podemos questioná-lo? Terá o aluno a ousadia de questionar o saber do professor? Ainda que este ou aquele professor seja inquirido neste ou naquele ponto, a sua autoridade estará resguarda pela posição que ocupa na instituição. Ou seja:
“A linguagem de autoridade governa sob a condição de contar com a colaboração daqueles a quem governa, ou seja, graças à assistência dos mecanismos sociais capazes de produzir tal cumplicidade, fundada por sua vez no desconhecimento, que constitui o princípio de toda e qualquer autoridade.” (Id.)
A imposição do saber canônico, da palavra autorizada, inclina-se à arrogância, manifesta ou camuflada (na forma da humildade demagógica). Isto ocorre na medida em que o portador do conhecimento científico não reconhece outro saber. Há quem considere que a posse da sabedoria livresca e do conhecimento titulado e legitimado pela instituição concede status superior. Não fosse o mal e o sofrimento que causa – para si e para os outros –, a arrogância bem que poderia ser desconsiderada ou simplesmente debitada às compreensíveis fraquezas humanas.

terça-feira, 19 de fevereiro de 2008

Inclusão Duvidosa - Mais computador, pior desempenho escolar


Por Fábio de Castro em 19/2/2008
Reproduzido da
Agência Fapesp, 13/2/2008
As políticas de inclusão digital, que estimulam o uso de computadores nas escolas, podem estar gravemente equivocadas, de acordo com um estudo realizado na Universidade Estadual de Campinas (Unicamp). A pesquisa mostra que o uso de computadores para fazer tarefas escolares está relacionado ao pior desempenho dos alunos – principalmente entre os mais pobres e mais jovens.
O trabalho, publicado na revista Educação e Sociedade, foi coordenado por Jacques Wainer, do Instituto de Computação, e por Tom Dwyer, do Instituto de Filosofia e Ciências Humanas. A equipe utilizou dados do Sistema de Avaliação da Educação Básica (Saeb) de 2004.
"Existe hoje uma posição dominante favorável ao uso do computador nas escolas, como se ele estivesse associado a uma melhoria uniforme no desempenho do aluno. Mas constatamos que ocorre o contrário: entre alunos da mesma classe social, os que sempre usam têm pior desempenho", disse Wainer à Agência Fapesp.
Do ponto de vista de políticas públicas, o estudo aponta que é preciso entender melhor o fenômeno do impacto dos computadores nas notas dos alunos antes de defender a inclusão digital baseada na distribuição de tais equipamentos.
Matemática e português
"Idéias como a de dar um laptop para cada criança parecem péssima opção, principalmente considerando que ele piora o desempenho escolar entre as crianças mais pobres. Corremos o risco de transformar a inclusão digital em uma exclusão educacional", afirmou Wainer.
Segundo ele, a pesquisa foi derivada do Mapa da Exclusão Digital, publicado pela Fundação Getúlio Vargas, do Rio de Janeiro, em 2003. O documento apontava um melhor desempenho no Saeb entre os estudantes que tinham computador em casa.
"O documento dava um argumento favorável às políticas de inclusão digital. Mas havia problemas metodológicos: em geral, quem tem computador em casa são os alunos mais ricos, que normalmente têm melhor desempenho. Para eliminar esse viés, resolvemos considerar a classe social e focar no uso para tarefas escolares", explicou.
O Saeb de 2004, segundo Wainer, prestava-se ao propósito, uma vez que incluía uma pergunta sobre a freqüência com que os alunos utilizavam o computador para tarefas escolares: nunca, raramente, de vez em quando e sempre.
"Usamos esses dados entre alunos de 4ª e 8ª série do ensino fundamental e do 3º ano do ensino médio e pudemos avaliar a variação do desempenho nas provas de matemática e português de acordo com a classe econômica, dividida em sete estratos", explicou o professor do Instituto de Computação da Unicamp.
Sem solução mágica
Os resultados mostraram que, na 4ª série, os estudantes de classe alta que usaram raramente o computador para as tarefas tiveram, em média, 15 pontos a menos do que os que nunca o fizeram – tanto em português quanto em matemática.
Dentre os mais pobres, os que usaram o computador, mesmo raramente, tiveram nota pior do que os que nunca usaram, com uma diferença média de 25 pontos em português e 15 pontos em matemática. "O resultado mais importante, no entanto, surgiu quando os estudantes disseram sempre usar o computador. Entre esses, não importou a classe social ou disciplina, o desempenho foi sempre pior do que entre os que nunca usaram", disse Wainer.
Entre os alunos da 8ª série, o quadro foi semelhante, mas houve uma melhora na prova de português entre os alunos que usaram raramente o computador. Em matemática, a diferença não foi significativa. "Mesmo assim, na 8ª série, os mais pobres que usaram raramente ainda se saíram pior do que os que nunca usaram. Entre os mais ricos, os alunos que usaram raramente estiveram um pouco melhor do que os que não usaram", contou.
Em matemática, para a maioria das classes sociais da 8ª série, os alunos que usaram raramente o computador se saíram melhor do que os que nunca o fizeram. "Por outro lado, quem usou sempre teve desempenho pior do que os que nunca usaram, em todos os casos", destacou Wainer. Todos os dados passaram por teste de significância estatística, para eliminar o chamado "ruído estatístico".
Segundo Wainer, a pesquisa constata apenas estatisticamente que os alunos que sempre usam o computador para suas tarefas têm pior desempenho. Mas não há dados para explicar por que o uso intenso piora as notas e por que o efeito é mais grave entre crianças de classes sociais mais baixas.
"Só podemos especular sobre os motivos. Para conhecê-los, será preciso que outros especialistas utilizem ferramentas diferentes para realizar estudos qualitativos. O importante é destacar que os resultados são coerentes com outros estudos internacionais", afirmou.
O pesquisador destaca que a avaliação de que o computador é uma ferramenta neutra é equivocada. "Como o computador é bom para nós, professores, por exemplo, tendemos a achar que ele é útil para todos. Mas ele não é uma solução mágica para a educação", disse.
Para ler o artigo "Desvendando mitos: os computadores e o desempenho no sistema escolar", de Jacques Wainer e outros, disponível na biblioteca on-line SciELO (Bireme/FAPESP),
clique aqui.

Igreja Universal x Imprensa - Intimidação e má-fé


Por Folha de S.Paulo em 19/2/2008
Editorial, 19/2/2008
Bispos da Igreja Universal do Reino de Deus desencadeiam, contra os jornais Extra, O Globo, A Tarde e esta Folha, uma campanha movida pelo sectarismo, pela má-fé e por claro intuito de intimidação.
Em dezembro, a Folha publicou reportagem da jornalista Elvira Lobato descrevendo as milionárias atividades do bispo Edir Macedo. Logo surgiram, nos mais diversos lugares do país, ações judiciais movidas por adeptos da Igreja Universal que se diziam ofendidos pelo teor da reportagem.
Na maioria das petições à Justiça, a mesma terminologia, os mesmos argumentos e situações se repetiam numa ladainha postiça. O movimento tinha tudo de orquestrado a partir da cúpula da igreja, inspirando-se mais nos interesses econômicos do seu líder do que no direito legítimo dos fiéis a serem respeitados em suas crenças.
Magistrados notaram rapidamente o primarismo dessa milagrosa multiplicação das petições, condenando a Igreja Universal por litigância de má-fé. Prosseguem, entretanto, as investidas da organização.
Não contentes em submeter a repórter Elvira Lobato a uma impraticável seqüência de depoimentos nos mais inacessíveis recantos do país, os bispos se valeram da rede de televisão que possuem para expor a pessoa da jornalista, no afã de criar constrangimentos ao exercício de sua atividade profissional.
É ponto de honra desta Folha sempre ter repelido o preconceito religioso. A liberdade para todo tipo de crença é um patrimônio da cultura nacional e um direito consagrado na Constituição. A pretexto de exercê-lo, porém, os tartufos que comandam essa facção religiosa mal disfarçam o fundamentalismo comercial que os move. Trata-se de enriquecimento rápido e suspeito – e de impedir que a opinião pública saiba mais sobre os fatos.
Não é a liberdade para esta ou aquela fé religiosa que está sob ataque, mas a liberdade de expressão e o direito dos cidadãos à verdade.
***
Empresário quer intimidar a imprensa
O Estado de S.Paulo
Editorial, 18/1/2008
Numa ação orquestrada para intimidar jornalistas e empresas de comunicação, fiéis e pastores da Igreja Universal do Reino de Deus ajuizaram dezenas de processos por dano moral contra os jornais Folha de S.Paulo e Extra. O primeiro jornal publicou em dezembro uma extensa reportagem mostrando como o fundador da seita, "bispo" Edir Macedo, usou o dinheiro do dízimo para montar um poderoso grupo empresarial, com o braço financeiro registrado no paraíso fiscal de Jersey. O segundo jornal noticiou a agressão a uma imagem de São Benedito – um santo católico – por um seguidor da Igreja, na Bahia.
Segundo a reportagem da Folha, o complexo empresarial de Edir Macedo é constituído por 23 emissoras de TV e 40 emissoras de rádio, o que o torna o maior proprietário de concessões do País. Além disso, o "bispo" evangélico é proprietário de 19 outras empresas, dentre as quais 2 gráficas, 1 imobiliária, 1 agência de turismo e 1 firma de táxi aéreo, todas registradas em nome de seus "pastores". A reportagem revelou ainda que a Universal arrenda as emissoras que integram a Rede Aleluia, que Macedo detém 99% das ações da TV Capital, geradora da Rede Record, e que ele tem à sua disposição um avião adquirido por US$ 28 milhões.
Nas dezenas de processos ajuizados contra a Folha, "pastores e fiéis" da Universal reivindicam indenizações de R$ 1 mil a R$ 10 mil, sob a justificativa de que a reportagem lhes causou prejuízos morais. Nas ações contra o Extra, os autores alegam que o objetivo do jornal não foi informar, mas provocar a "ira" dos católicos e criar um clima de "perseguição religiosa", submetendo os seguidores da seita ao "risco diário de sofrer agressões físicas e discriminações".
O que chama a atenção nessas ações de dano moral não é o baixo valor das indenizações pleiteadas nem a falta de fundamento nas justificativas, mas, sim, a estratégia utilizada pelo empresário para intimidar jornais e jornalistas. As ações contra o Extra foram ajuizadas não na cidade onde está a sede da empresa, mas em distintas comarcas no interior do Estado do Rio de Janeiro. Os processos contra a Folha foram protocolados em lugares ainda mais distantes – quase todos situados a cerca de 200 quilômetros da capital de diferentes unidades da Federação. E, embora as ações sejam individuais, quase todas as petições apresentam textos idênticos, deixando clara a existência de uma ação orquestrada.
Como os dois jornais têm de se defender em cada uma dessas comarcas, o expediente da Igreja os obrigou a contratar advogados nas cinco regiões do País, elevando significativamente os gastos das empresas que os editam. Além disso, como várias audiências foram marcadas no mesmo dia e em algumas cidades da Região Norte, cujo acesso somente se faz por barco, o departamento jurídico da Folha teve de montar uma logística especial para defender a empresa e a jornalista que assinou a reportagem. Muitos processos foram abertos em juizados especiais cíveis, o que, por lei, exige a presença do réu e aumenta os gastos das empresas com viagens e deslocamentos de advogados e jornalistas. E em vários processos os autores citam não somente os repórteres, mas também os diretores de redação – e todos são obrigados a comparecer às audiências, sob o risco de serem condenados à revelia.
Em nota de protesto, a Associação Nacional de Jornais (ANJ) qualificou a estratégia da Universal como "intimidação ao livre exercício do jornalismo". Para a entidade, os "pastores" e fiéis que acionaram a Folha e o Extra não têm por objetivo "restabelecer a honra ou a verdade, mas apenas constranger empresas jornalísticas no seu dever de livremente informar a sociedade". "É uma tentativa espúria de usar o Poder Judiciário contra a imprensa e privar o cidadão do direito de ser informado", conclui a nota.
Felizmente, os magistrados encarregados de julgar esses processos já perceberam a má-fé dos reclamantes. Alguns juízes nem sequer acolheram as ações. E pelo menos um deles, Alessandro Pereira, da comarca de Bataguaçu, Mato Grosso do Sul, não só rejeitou sumariamente o pedido de indenização, como condenou o autor por litigância de má-fé. Com decisões como essa, a Justiça está tratando o querelante como o que ele realmente é – um ganancioso empresário bem-sucedido – e não como o pastor evangélico caluniado pelos inimigos da sua igreja, que é como ele se apresenta.

O professorado e a "baboseira ideológica".


Por Gabriel Perissé em 19/2/2008
A edição nº 2047 (de 13/2/2008) da revista Veja dedicou um espaço considerável ao tema da educação nacional. A entrevista com a secretária estadual de Educação em São Paulo, Maria Helena Guimarães de Castro, e os artigos dos economistas Claudio de Moura Castro e Gustavo Ioschpe compõem uma espécie de concepção "vejiana" da educação.
A secretária Maria Helena enfatiza que um dos maiores problemas da deplorável situação da educação em São Paulo (leia-se, por exemplo,
matéria da Folha, publicada faz um ano) é o insatisfatório nível profissional dos professores. Os professores seriam incapazes de dar boas aulas. Quando a jornalista Monica Weinberg lhe pergunta qual o caminho para melhorar esse nível, a resposta da secretária é, digamos, corajosa: "Num mundo ideal, eu fecharia todas as faculdades de pedagogia do país, até mesmo as mais conceituadas, como a da USP e a da Unicamp, e recomeçaria tudo do zero." Essas faculdades apenas perpetuariam "baboseira ideológica".
Maria Helena é socióloga, mestre em Ciência Política pela Unicamp e, segundo
informações oficiais, está concluindo doutorado na USP em Ciências Sociais. Sua crítica, portanto, é de quem se sente apta a julgar como totalmente ineficazes os professores que ao longo das últimas décadas deram o tom da formação pedagógica brasileira. Pensemos nas aulas, conferências e escritos de Dermeval Saviani (Unicamp) e Antonio Joaquim Severino (USP), para mencionar, entre tantos outros, dois acadêmicos de prestígio.
O modelo da gincana
Seriam os doutores em pedagogia os principais responsáveis por fomentar vários mitos que atrapalham a educação pública. Para Maria Helena, é um mito afirmar que o aumento salarial dos professores ou um plano de carreira influenciariam a melhoria do ensino. Na sua opinião, dinheiro (para falar curto e grosso) não resolve. A menos que esteja vinculado a uma "política de reconhecimento do mérito". Por isso, a secretária pretende pagar bônus a todos os que, numa escola – funcionários, professores e diretor – "levarem" os alunos a alcançar determinadas metas de bom desempenho. Os bônus poderão chegar a três salários por ano.
Imagina Maria Helena que os professores, motivados pela perspectiva de um prêmio pecuniário, insuflados pela súbita adoção da meritocracia (como se esta existisse no plano político...), realizarão o milagre de transformar a realidade educacional. Essa metodologia do burro atrás da cenoura sussurra aos ouvidos do professor: "Quer mais dinheiro? Então trabalhe mais!" Não leva em conta os problemas reais que tornam a boa vontade e o esforço do docente, por maiores que sejam, fonte de mais estresse. Contudo, e vai aqui simplória sugestão — uma vez que os bônus estarão condicionados ao desempenho dos alunos, por que não prometer também aos estudantes uma participação? Uns 5% poderiam incentivá-los a colaborar com essa escola de resultados!
A idéia simplista de que a repetência, o abandono escolar (vale a pena ler matéria do
Correio Braziliense), o desinteresse crônico, a indisciplina, o fraco rendimento etc. devem-se sobretudo à falta de bons "dadores de aula" demonstra que o estilo "PSDB" de governar não tem condições de analisar a realidade educacional e oferecer soluções melhores do que o modelo da gincana. Quem correr mais, quem tiver sorte e/ou for mais criativo, atinge os objetivos, ganha pontos e arrebata o prêmio.
Formação humanística
Não poucos alunos enfrentam problemas fora da escola (famílias desestruturadas, ambiente social adverso, falta de valores, de referências, carências alimentares e de saúde) e esses problemas geram novas e complexas dificuldades na sala de aula, associadas a outros mil problemas que independem de uma boa aula. Aliás, impedem a boa aula que o bom professor porventura preparou. Como poderá a cenoura bonificadora fazer professores e diretores deterem o tráfico de drogas que invade as escolas, consertarem móveis quebrados, reformarem os banheiros, transformarem salas sem ventilação em paraísos didáticos, evitarem a violência entre os alunos?
Há professores despreparados? Há. Escolheram o magistério por idealismo (acreditaram na pedagogia do amor à la Gabriel Chalita, ex-secretário da Educação no tempo de Geraldo Alckmin) ou por falta de alternativas. São sobreviventes de um ensino básico sofrível, de um ensino médio deficiente, falta-lhes até mesmo estrutura física e emocional para dar conta da sobrecarga de classes, expediente necessário na luta por somar salários.
Há professores que faltam muito? Sim. Os que faltam, não raro, fogem das condições de trabalho: indisciplina incontrolável, humilhações e arbitrariedades que usurpam sua autonomia, falta de recursos materiais, falta de tempo e de saúde por excesso de atividades. Lembrando que a maioria feminina entre os docentes põe em jogo outra questão para além da sala de aula. São as mulheres que, professoras com 30 a 40 horas/aula por semana, estão sobrecarregadas também pelas tarefas domésticas.
E não só isso. Educar, ensinar, é tão ou mais exigente do que outras exigentes profissões. Requer a prática da comunicação, o dom da invenção, a capacidade de avaliar (intuitiva e objetivamente) o comportamento humano (de crianças e adolescentes!), forte autonomia profissional, virtudes que só se desenvolvem com formação humanística prévia e auto-aprendizagem contínua. Estas, por sua vez, implicam leitura, reflexão, acesso à cultura no sentido amplo, apoio profissional (bons cursos, boas oficinas, orientação didática, ajuda psicológica) e tranqüilidade econômica.
Salário não é tudo, mas...
Como uma espécie de comprovação das opiniões da secretária, Claudio de Moura Castro escreve na mesma edição da Veja um artigo igualmente curto e grosso: "
Salário de professor". Baseado em que, segundo as sempre infalíveis estatísticas, os docentes brasileiros possuem remuneração compatível com a realidade empregatícia nacional, o articulista conclui que os sistemas públicos se tornariam mais eficazes se "conseguissem criar um ambiente mais positivo e estimulante". O exemplo estaria nas escolas privadas, em que os professores, com "níveis salariais parecidos", estão contentes.
O mais estimulante seria então a tal cenoura tentadora do bônus? Moura Castro não afirma nem nega. Menciona outro tema: o da gestão. "Como a escola tem a cara do diretor", dependeria então desse gerente do ensino, digamos assim, valorizar os professores, motivá-los, com bônus ou sem bônus. Mas se, na prática, os diretores são indicados pelo clientelismo dos governos locais ou, mediante concurso, estão politicamente compromissados de modo mais ou menos velado com estes mesmos governos, a escola desse diretor dificilmente terá a cara dos professores nem dos alunos que lá estão.
A propósito, recomendo que economistas e sociólogos que se autoproclamam especialistas em educação leiam outro uspiano (antes de se fecharem as faculdades de Educação): o pesquisador Vitor Henrique Paro, sobre a eleição de diretores em escola pública como experiência democrática de grande valor.
Nenhuma palavra da secretária e do articulista sobre a iniciativa do governo federal de estipular o salário mínimo dos professores em 850 reais, o que significará um aumento de quase 50%. Não concordam eles com o ministro Fernando Haddad? Salário, concordo eu com eles, não é tudo, mas, sem cuidar dos salários, tornando-os, inclusive, atrativos para melhores profissionais, o governo poderá jogar no sistema o dinheiro que bem quiser (contratar consultorias, investir em computadores, instalar câmeras para monitorar os alunos etc.), mas os problemas continuarão a se perpetuar.
Finlândia, o paradigma
O terceiro capítulo educacional dessa edição da Veja é assinado por Gustavo Ioschpe: "
Pelo direito à ruindade". Gustavo critica o MEC pela iniciativa, que considera "antiliberal", de averiguar melhor a qualidade do ensino superior (em particular as faculdades de direito e pedagogia), sob pena de fazer reduzir a oferta de vagas ou mesmo fechar o curso. Ora, não dissera a secretária de Educação que, se fosse possível, fecharia todas as faculdades de pedagogia, mesmo as que têm a melhor avaliação? Não são essas faculdades que prejudicam a escola, transmitindo baboseiras ideológicas em lugar de ensinar os professores a serem professores?
A contradição é só aparente. No momento em que as faculdades de pedagogia estivessem todas fechadas, sobretudo as públicas, mais críticas, menos dóceis ao mando, tudo recomeçaria do zero. Ou ficaria tudo na estaca zero. Quem quisesse abrir fábricas de diplomas pedagógicos teria amplo direito de fazê-lo, sem maiores impedimentos ou muitas cobranças, como em outros tempos, e os professores formados nessas faculdades teriam o dever de superar sua posterior "ruindade", rezando pela cartilha da "pedagogia do bônus".
Estaria assim o mercado controlando as coisas ao seu modo: o famoso "salve-se quem puder".
Mas o espírito "vejiano" continua a dar lições sobre a arte de lecionar... Na edição desta semana (nº 2048, de 20/2/2008), a revista Veja publica a matéria "A melhor escola do mundo". Thomas Favoro, diretamente da Finlândia (país com características idênticas às do Brasil), revela o que podemos aprender em termos educacionais.
No quesito "salário", os professores finlandeses, infinitamente melhores do que nós, recebem cerca de 2.500 dólares/mês; nós embolsamos algo em torno de mil dólares/mês. Esclarece a matéria, em letras minúsculas, que se trata de professores do ensino fundamental com 15 anos de experiência.
Segundo o texto, e deve ser verdade, 100% dos professores finlandeses possuem o mestrado. Já no Brasil, somente 2%. Mas se depender da gestão do governador José Serra, essa disparidade continuará. Em meados do mês de janeiro de 2008, suspendeu-se o programa "Bolsa Mestrado" para os professores estaduais. O intuito deve ser viabilizar o tal bônus que aí vem!

Um novo tipo de repressão


Por Muniz Sodré em 19/2/2008
Existe um elo pouco visível, mas bastante real, entre as eventuais discussões sobre a transposição das águas do rio São Francisco e a enxurrada de ações de danos morais contra a imprensa no Brasil. Para percebê-lo, é preciso tomar esses fatos diferentes como sintomas de uma realidade maior, que ultrapassa os limites nacionais: o encolhimento do espaço público e o aumento concomitante do fenômeno de "jurisdicização" da vida social. Este último pode ser resumido como uma espécie de hibridismo que mistura elementos da tradição democrática com o modernismo liberal mal digerido e redunda numa extensão indiscriminada da máquina judiciária à sociedade como um todo. A utilização imoderada dos processos jurídicos e de seus efeitos éticos colaterais é uma das conseqüências imediatas do fenômeno.
O que isso tem a ver com a transposição das águas? Para começar, ponhamos em foco uma frase do deputado Ciro Gomes após uma sessão no Senado, a que compareceram, além do bispo Dom Luiz Casppio, celebridades televisivas: "O lamentável desses debates é que entramos com uma opinião e saímos exatamente com as mesmas opiniões" (O Globo, 15/2/2008). O deputado comentava assim o voto de esperança da atriz Letícia Sabatella no sentido de que tudo aquilo não fosse "apenas teatro".
Duas dimensões da mediação
A frase do político – e presidenciável – é interessante ao olhar do observador por ser sintoma da inexistência de algo que seria necessariamente inerente à saúde dos debates, ou seja, o espaço público. Conversa-se na televisão, entrevistam-se personalidades ad nauseam, realizam-se audiências públicas nas várias instâncias do Legislativo, mas o resultado constante é a inanição dos discursos. Em outras palavras, o excesso de publicidade das expressões individuais não define aquele espaço em que se constitui politicamente a cidadania na sociedade ocidentalizada, isto é, o espaço público.
Inicialmente, a palavra "público", além da designação do ordenamento estatal da vida social, refere-se ao espaço onde a sociedade torna visível tudo aquilo que tem em comum, inclusive a semiose coletiva (etiquetas, praças, monumentos, teatros etc.) resultante da representação que os grupos sociais fazem de si mesmos. Mas como muito bem observa o sociólogo português José Gil, o espaço público é mais do que um puro lugar de comunicação, pois "sua característica primeira é a de constituir uma exterioridade, um ‘fora’ para os sujeitos (individuais ou coletivos) que nele penetram".
Esse espaço se torna visível na comunicação e no diálogo, mas se define essencialmente por sua exterioridade enquanto plano de expressão e de "circulação de forças". A circulação dos discursos informativos, das notícias, refere-se imediata e tecnicamente à comunicação, mas a circulação de forças sociais e os debates transformadores dizem respeito à política. Entretanto, é preciso levar em conta a desvinculação crescente entre o espaço público e a política, categorias ligadas desde as suas origens.
Parece estar chegando ao fim a coincidência entre duas dimensões da mediação tradicional: o espaço público e o espaço político. Quer dizer, por um lado a perda de centralidade da política no espaço público; por outro, o enfraquecimento do poder de transformação das expressões individuais e coletivas que caracterizava isso que denominamos de espaço público.
Debate não muda opinião
Por outro lado, a ampliação tecnológica e mercadológica da esfera pública pela mídia não significa o aumento de sua exterioridade social ou de sua capacidade circulatória das forças de representação na política, isto é, das forças que tradicionalmente constituem a cidadania. Significa, sim, o incremento desmesurado dos signos, das imagens, das informações, que tem mais a ver com um "jornalismo de serviço" (service journalism, nos EUA) do que com o jornalismo cívico em termos políticos.
Na Era da Informação, as pessoas estariam mais voltadas para uma orientação relativa ao consumo ou ao entretenimento do que para a factualidade de natureza político-social tradicionalmente implicada nas notícias e nos debates relativos à condução política da sociedade. Pode-se especular, sugerindo que a informação do fato é própria da cidadania de natureza política (atinente à tradicional democracia representativa), enquanto que a informação de serviço predomina na contemporânea democracia social.
Nesse vazio de um verdadeiro espírito público – em que vigora a cidadania política –, os debates "publicizados" ou veiculados por mídia perdem a "exterioridade" a que se refere José Gil, ou seja, o poder de converter em algo diferente de si mesmas as opiniões individuais. Assim pode ser lido o sentido profundo da citada frase do deputado: o debate não muda a opinião de ninguém, é como se cada debatedor fosse uma mônada surda ao discurso do outro, embora cheio de retórica expressiva. O risco, como suspeita a atriz, é de que a toda a troca de opiniões não passe de teatro. Senão, de puro efeito de mídia.
Espetáculo da corrupção
Mas é também na inanição do fenômeno político e, conseqüentemente, de seu reflexo na imprensa, que a máquina judiciária "transpõe-se", como as águas de um rio, para ocupar os espaços diversos de outras instituições sociais. Este não é um argumento muito novo. Sociólogos e filósofos europeus já se deram conta há algum tempo de que a reivindicação dos direitos da cidadania tem hoje enorme predileção pelas formas processuais, que lhe dão uma aparência de resolução. Este é um dos sintomas, já mencionados, da "jurisdicização" da vida social.
No fundo, fascinada pela potência da lógica judiciária, a comunidade abre mão da gestão política do social (o que só é possível pelo enfraquecimento do vínculo intersubjetivo) em favor de uma esperança de transparência, supostamente garantida pela máquina da justiça. O princípio da representação política dá lugar à delegação processual.
Talvez ainda seja cedo para se avaliar o quanto de liberdade civil se pode perder nesse processo. Mas já se pode suspeitar, com boa dose de fundamento, que tem a ver com tudo isso a vigilância feroz das palavras (não dos corpos, nem mesmo do sexo) dirigidas a outros em público. De dez anos para cá, coincidentemente com a onda do "politicamente correto", entraram na moda as ações de danos morais, inicialmente contra indivíduos, depois contra corporações jornalísticas. Uma crítica política acerba pode ser a mais "justa" num determinado contencioso, mas agora o que ela suscita não é mais a velha resposta em espaço público, e sim uma ação por dano moral. Uma reportagem bem apurada pode ter como "resposta" dezenas e dezenas de ações de danos morais, como agora acontece a uma repórter da Folha de S.Paulo e ao editor do Extra.
A moralização generalizada do social pelo frenesi judiciário atenta contra a plenitude das liberdades civis, logo, contra o que se tem entendido como imprensa livre. Mas, pelo visto, o nosso jornalismo atual ainda não avaliou o perigo; apenas se ressente do incômodo causado pelos processos. Se tivesse mesmo se dado conta da gravidade do fenômeno, não se contentaria com a produção frenética, em nome da transparência legal, do espetáculo da corrupção dos políticos.
Claro que é importante a moralização da gestão pública, claro que importa a transparência pública dos gastos. Mas tão ou mais importante é encontrar formas sociais de revigoramento do espaço público pelo livre debate, aquele capaz de produzir a mudança de opiniões, aquele mesmo responsável pelo peso da imprensa na história das liberdades civis.